Arquivo de setembro \13\UTC 2011

Nosso baile acabou.

Acabaram-se os jantares, os talheres. Acabou-se o tempo das pratarias. Não mais serão ouvidos os risos, gargalhadas, os panos intocáveis e nada será como antes. Foi-se embora a gentileza, as obrigações, o carinho mútuo e reconhecimento (se é que um dia existiu). Acabo de me mudar, pra Passárgada talvez e deixo no meu rastro de poeira os desejos comuns e toda a minha sinceridade.

Não mais às cenas conjuntas, discutidas, colaboradas. Não mais à dramaticidade demodé, aos maus hábitos, à sujeira moral. Não mais às fumaças nicotinizadas, rodeadas de compreensão. A tabuada do tabaco acabou. Não mais às piadas internas, pupilas dos abraços fraternos, longe da descoberta, quando ébrios, não sóbrios, tomávamos de assalto as ironias alheias, o sarcasmo avulso e a retórica.

Dispenso as linguagens, dispenso nossos dizeres. Dispenso a hipocrisia que tomou conta desse país chamado outrora ‘lar’. Dispenso a vida a dois, dispenso citações, dispenso recitais de poesias que nunca gravei em mente. Dispenso dramas e ter de ouvir sobre outra, quando éramos nós o assunto em pauta não discutida. Dispenso suas cantorias mal feitas sobre mim durante seus rodopios no seu, e agora também nos salões que me pertencem.

Te deixo o que passou, algo ínfimo que tenha ficado. Te deixo a agulha no palheiro, vestindo a máscara de meus cruéis sentimentos hoje e agora. Te deixo o gosto amargo de sinceridade e confiança partidas, irrecuperáveis.

Desejo-te sorte, ou não, desejo-te bom senso na vida. Continuemos a valsa, enquanto é necessário. Mas o glamour dos vestidos, a leveza das danças e a sensação de estarmos nos conduzindo mutuamente, parceiros no salão da vida e das delícias de sermos jovens e irresponsáveis, nada disso existiu realmente.

Mais cedo ou mais tarde, retiro-me do baile. Mesmo que não seja a última a sair, feche as cortinas, apague a luz, limpe o assoalho. E reflita, na penumbra que é sua vida.

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Todos os cafés possíveis

A aproximação incontida e o buraco no estômago desse desejo,
O barulho da barriga instintiva.
Os exageros, a praticidade.
Quero ser poeta como Chico
Pra te dizer que te quero sem parecer piegas.

As mãos se encaixam e a vontade, velha vontade
De estar junto por partilha, por necessidade.
As ideias, não acopladas ao sentimento
Trombam-se ilogicamente
No perder-se por querer.

A cada soluço da saudade, na descoberta da ausência
E a certeza da saudade
Não são os únicos alimentos da nossa troca.
A colisão dos corpos
Uma alegria ainda não vivida.

Não é à toa, a tal construção, essa delirante queda conjunta
Não é à toa, essa espécie de suicídio
Não é à toa, esse meu desespero
E a vontade dos seus beijos,
Acalentando o meu medo ansioso, minhas manias…

Criando asas no espaço que não conhecemos
Um domínio impossível
A tentativa do não feito
A tolerância das discrepâncias
União do singelo com o belo.

Tão simples quanto o fazer café, deveria ser assim.
Espero não sangrar durante o preparo.
Quero voltar para a sala e te encontrar no sofá
Com os abraços, o cafuné e a vontade desmedida de mim
Sem os egoísmos característicos de nossa espécie.

Não, essas não são as únicas linhas minhas sobre você.
Com o tempo, vais me lendo lentamente
E saboreando o seu prazer na leitura injusta
Na borra do café. Este, que faço questão de tomar.
E mesmo que me envenenem, absorvo timidamente,
Todos os cafés possíveis.

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