Arquivo de março \21\UTC 2011

Há uma contradição aqui

Por: Darlon Silva

Deixa eu ser seu Latin Lover.
Deixa eu ser seu Latin Lover.
Deixa eu ser a sua ironia de Woody Allen
Deixa eu ser sua juventude em Manoel de Oliveira
Deixa eu ser o retrato do seu Dorian Gray
Deixa eu ser o suspense no seu Alfred Hitchcock
Deixa eu ser a drag queen na sua sensibilidade almodovariana
Deixa eu ser a aventura, e você, meu James Cameron
Deixa eu ser a intensidade e você, minha Clarice Lispector
Deixa eu ser também o seu fluxo de consciência
Deixa eu ser o seu cinema marginal, sujo, bandido
Deixa eu ser a sua redenção, em Saramago
Deixa eu ser também sua cegueira crua
Deixa eu ser o seu melhor amigo homem
Deixa eu ser a sua Odete Roitman, a sua Nazaré, a sua Paola Bracho
Deixa eu ser a suprema felicidade do seu Arnaldo Jabor
Deixa eu ser o seu soco na cara, e você, meu Quentin Tarantino
Deixa eu ser o seu abraço, na sua terra estrangeira
Deixa eu ser sua morbidez, meu Augusto dos Anjos
Deixa eu ser o lado sexual selvagem do seu caráter puro
Deixa eu ser o seu teórico da comunicação, em nome de qualquer rosa
Deixa eu ser o seu mais forte charuto na coleção do Fidel Castro
Deixa eu ser a pista mais quente da sua balada
Deixa eu ser o seu pavão misterioso, o seu conto de cordel
Deixa eu ser espelho que te reflita pela manhã
Deixa eu ser o populismo do seu lulismo
Deixa eu ser o Renato Russo no seu faroeste caboclo
Deixa eu ser sua barata kafkaniana
Deixa eu ser o feijão preto na sua comida francesa
Deixa eu ser a Augusta e você, Avenida Paulista
Deixa eu ser sua coerência e coesão textuais
Deixa eu ser o sutiã de cone da sua Madonna
Deixa eu ser o seu vestido, e você, minha Geisy Arruda
Deixa eu ser o exagero, e você, meus anos 80
Deixa eu ser o brilho do seu estilo setentista
Deixa eu ser a batida do seu eletropop
Deixa eu ser a Joelma do seu Calypso
Deixa eu ser o pensamento do seu Lévi-Strauss
Deixa eu ser a brasilidade no seu Gilberto Freyre
Deixa eu ser a agulha que toca na sua vitrola
Deixa eu ser o seu pen drive com mais espaço
Deixa eu ser o melodrama da sua telenovela
Deixa eu ser alguém na sua noite
Deixa eu ser o seu ator pornô
Deixa eu ser sua brasilidade, sua latinidade
Deixa eu ser a banda larga da sua conexão
Deixa eu ser o tweet mais retweetado
Deixa eu ser a falta de expressão, e você, meu Ricardo Macchi
Deixa eu ser a sua depilação, e você, minha Cláudia Ohana
Deixa eu ser sua amnesia, minha Vanusa,
Deixa eu ser o moonwalk do seu Thriller
Deixa eu ser a Lucy no seu céu com diamantes
Deixa eu ser o judeu da sua câmara de gás
Deixa eu ser a sua masturbação no palco, e você, minha Patti Smith
Deixa eu ser a sua pasta de amendoim, meu Iggy Pop
Deixa eu ser a popart na sua Factory, meu Andy Warhol
Deixa eu ser a Elis Regina cantando para você, em Falso Brilhante
Deixa eu ser a ditadura militar da sua democracia
Deixa eu ser o debate da sua campanha eleitoral
Deixa eu ser a bagunça do seu travesti
Deixa eu ser o programa da sua noite
Deixa eu ser a Rita Cadillac do seu presídio
Deixa eu ser o seu paciente inglês
Deixa eu ser os pedaços do seu Picasso
Deixa eu ser a sua loucura, e você, meu Salvador Dali
Deixa eu ser a simplicidade do seu Carlos Drummond
Deixa eu ser o linguajar do seu Guimarães Rosa
Deixa eu ser a sua batata frita
Deixa eu ser o seu milk shake
Deixa eu ser o seu Romeu
Deixa eu ser o seu clichê mais absurdo
Deixa eu ser seu Sancho Pança
Deixa eu ser a saia justa do seu feminismo
Deixa eu ser seu salto alto
Deixa eu ser seu mp3
Deixa eu ser o detalhe no seu Roberto Carlos
Deixa eu ser um dos Beatles na sua coleção de vinis
Deixa eu ser a droga da sua Christiane F.
Deixa eu ser David Bowie, e você, meu camaleão
Deixa eu ser essa coisa louca
Deixa eu ser o gol de bicicleta do seu final de campeonato
Deixa eu ser o último trago do seu cigarro
Deixa eu ser o último gole da sua cachaça
Deixa eu ser o espermatozóide que te gerou
Deixa eu ser meu pênis na sua vagina molhada
Deixa eu ser seu Latin Lover
Deixa eu ser seu Latin Lover
Deixa
Deixa
Deixa pra lá.

Inspirado em “A cem por hora” de Renato Godá

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Os amantes

Por: Darlon Silva

Tornar-se amante é o estado de graça do amor que destrói. Mas nenhum amante pretende libertar-se de tal jugo. Não parece ser um fardo pesado. O preço que se paga para que tantas sensações de paixão e prazer possam ser sentidas por duas pessoas que se ardem, não raro se torna alto demais
para a nossa compreensão racional.
Amantes devem sentir cada raio de sol em seus corpos ardentes. Precisam ter o corpo colado um ao outro, necessitam do olho no olho. Os lábios se colam em um frenesi constante, como se através da boca pudessem sugar as almas de forma furiosa e viril. Os olhos se tornam doces, mas em brasa, durante o amor carnal. As reações físicas provenientes de uma paixão não podem ser explicadas nem mesmo pelos mais sábios cientistas ocidentais, homens frívolos, sem grandes paixões, trancafiados em laboratórios e fórmulas nada excitantes.
Os amantes são a salvação do mundo, o contraponto do marasmo, o cerne da discórdia. São os dedos atrevidos que percorrem os corpos prometidos, ultrapassam as fronteiras proibidas, enlouquecem a razão e subvertem os valores. Entregar-se a uma paixão furiosa é quebrar com o pacto social pois é uma força tão extraordinária e revigorante que dois seres humanos apaixonados são incapazes de ferir somente a si próprios. Sempre há um elemento a mais, complicador, que sofre, embora nem sempre participe de partilha nos momentos de prazer físico.
Todo amante quer sangue. Correndo nas veias. Saindo pelos orifícios. Em pontudas seringas de sacrifício, pingando gota a gota cada resquício de dignidade que ainda os reste no peito combalido. E quer mais, quer vergonha, quer sofrimento, quer abuso. O amante quer uma entrega tão dócil e submissa do outro que esta, vista de fora, parece ser inescrupulosa, imoral, e na verdade o é.
Estes imorais querem luta, querem sofrer todo o processo de dor, necessitam de um objetivo final impossível de ser alcançado que os estimule a procurar no corpo do outro mais prazer, mais desejo, mais glória, mais pecado. É uma busca vã, como qualquer busca humana. Embora as sensações aproximem-se do divino, os amantes não devem se enganar. Se existe um inferno, a eles está reservado. Se a vida realmente é justa, certamente todos os indivíduos portadores do vírus paixão serão castigados.
Suas peles serão vagarosamente retiradas do corpo, pois é na pele onde registram as percepções do amor proibido.Imprime-se na pele o que foi vivido, como reserva para um futuro onde o outro é ausente. A pele guarda em si, como se a ferro fosse marcada, o toque do outro, o cheiro. E remete a lugares onde o desejo foi corrompido, os prazeres extasiados e as promessas ditas em murmúrios, cochichando sobre os ouvidos abobalhados e atentos de quem sempre está pronto
a escutar juras e a fazê-las inconsequentemente.
Ser amante é encher-se da certeza de ter se tornado inseguro. Isso faz sentido. A derrocada de uma grande paixão vem quando as certezas construídas carinhosamente dão lugar ao sentimento de posse mais poderoso, forte e imaturo que duas pessoas podem criar entre si. A paixão é benéfica e parruda quando revigora alguma alma acomodada pela desgraça, porém essa força que lhe é característica torna-se gigante e incompreensível quando destina-se a destruir, dissimular e criar factóides através do horripilante sentimento do ciúme.
Mas convenhamos, a derrocada de uma paixão é, frequentemente, a parte da história mais intensa, densa e interessante. É quando as máscaras caem, os olhares já nao se encontram, os corpos não se bastam mais. Quando o frio apaga as fogueiras apaixonadas feitas sob o luar cálido. Quando os dedos percorrem os corpos, não mais em busca do prazer, mas na paranóia dos vestígios. Quando a inexistência torna-se mais perigosa que a presença e a indiferença calcula seu método final.
Certamente o final de uma paixão é uma forma de vingança social. A sociedade, calculada, regrada, milimetricamente pensada a ser perfeita, vai de encontro a tantos sentimentos confusos, que parecem ser tão deliciosos! Sentindo-se incomodada, essa criatura mal educada que é a sociedade cria mecanismos, organismos e tantos outros ‘ismos’ para que a paixão seja controlada, refreada, colocada sobre o cabresto forte da razão. Mas não funciona.
Mesmo destruídos pelo combate, os amantes serão amantes até o fim trágico da coisa. Entregar-se-ão somente com os corpos cansados, o cálice já sem o vinho, os olhos fechados e uma respiração que não mais existe. O monstro mal educado finge sorrir, mas mesmo pisando nos corpos inertes no chão, sabe que isso nunca terminará. Em cada cabaré, em cada igreja, em todas as casas, nas ruas, no mercado, nas mais cultas escolas, na mais rígida disciplina, aquele vírus maldito paira sobre as pessoas, superior.
Estes seres amaldiçoados persistem também na criação de seus próprios esconderijos, ninhos de amor e pecado. Ora, não sabem eles que isso é cometer suicídio? Não pensam no depois? Nas lembranças que esses lugares horríveis, íntimos, onde o fogo dessas paixões transborda aos borbotões e essas lembranças aderem às suas peles, como um vestido costurado em suas almas para o resto de suas vidas? Quão babacas são ao imaginarem, veja só, que estes lugares inóspitos e ridículos são ‘o canto do mundo mais quente e bonito das nossas vidas, porque aqui somos só nós dois e eu tenho você sob os meus braços’. Ah, por favor!
Para azar de quem não ama e se acha racional demais para isso, é importante saber que, onde houver um peito que arfe, um rosto que core e alguns lábios dispostos a arderem por outros lábios, o vírus da paixão ainda estará por ali, vivo. E pronto para mudar a vida das pessoas, tornando-as trágicas, desesperadas, enlouquecidas, dramáticas. Enfim, fazendo de qualquer idiota com o coração pulsante de vida um herói na mais frustrante busca humana. A busca pelo amor. A paixão é um atalho que pode nos levar ao amor, porém é um atalho traiçoeiro e frágil, muito frágil. Os amantes procuram, precisam desse atalho. Pois no fundo, mais que alcançar o amor, os amantes estão interessados na dor da queda.

Por: Darlon Silva (em construção)

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Gabriel, Benjamim

Por: Darlon Silva

“Les extrêmes se touchent.”

Enquanto o sol lá fora ardia em um momento de chuva constante, Darlon dentro de casa escrevia recostado no velho sofá. Com o rosto molhado de suor no esforço de produzir algo interessante Darlon pensa, mas não está feliz. Ele sabe, embora não compreenda (todo mundo sabe) que escrever seja foda, mas o surto não acabou… Espera por um sinal milagroso vindo, talvez, de algum mundo habitado por gênios a inspiração que tanto quer para um texto intimista, pessoal e cheio de referências sobre um encontro casual e passageiro, embora marcante, beijos. Acompanhemos!

“Gabriel

Luar quente e cálido, contraste com o meu espírito gelado agora. Estou com cacos do meu coração de vidro nas mãos e corto furiosamente a casca que criei e que protege de mim mesmo. Não há motivos para isso, pois não há maneiras de se defender de si mesmo. Bobagem. Lanço minhas mãos para o ar, aguardando por um abraço. Meu olhar percorre a sala, as lágrimas tolas e bobas insistem em cair rolando pela minha face. Insistentemente algumas cenas vêm à minha cabeça, monto o roteiro mas os atores partiram e a câmera da minha vida emocional nunca foi ligada. Não há outro modo de dizer que está doendo, queridos.
Lanço o meu corpo sobre o chão, rolando entre as lágrimas que caíram. Já senti prazeres maiores em chãos mais frios. Eu sinto que no fundo no fundo, talvez seja eu mesmo quem mais goste de sentir minhas dores. Não seria feliz sem elas. Não há felicidade sem dor, pois para o paraíso o caminho é feito de pedras.
Cigarro. Outro. Outro. Café. TV. Vida social me constrange. Estou desesperado porque percebi que vou ter que me agüentar até o fim da minha vida. Há tanta coisa a ser dita a você! Mas algumas eu posso resumir, afinal, nem todo o papel do mundo seria o suficiente, não, não seria! Beijos não resumiriam a necessidade, palavras não traduziriam a dor, embora eu saiba que tudo vai passar!
Ah, me lembro do seu corpo e do quanto eu gostaria de tê-lo invadido! Com força, como se arrancasse sua alma. Gostaria de ter comido um pedaço de você e levá-lo dentro do meu intestino o resto da minha vida! Seus lábios adocicados (embora um pouco secos) eu gostaria que me acompanhassem por um tempo, até que eu me enjoasse.
Gostaria de ter algumas mechas do seu cabelo macio em minhas mãos durante o dia. Gostaria de pressentir o seu olhar instigante e absurdamente intimidador me acompanhando durante o dia, sorrateiramente. Gostaria do contato com suas mãos de gente fina, do roçar da barba espessa, dos pêlos do seu corpo crescido, do contato mais intimo e revelador. Gostaria de te invadir à força, com força num crescente ímpeto de prazer, ódio, tesão e admiração.
Que Deus me dê força pois penso durante o dia em te dominar o corpo, alma e espírito, te deixar nu moralmente e revestir-me com sua pele. Ter você sexualmente sobre os meus pés, enxergar nos seus olhos o pecado, a dor, o êxtase. Sei que você não me entende, poucos conseguem, Não tente, sua normalidade é reconfortante à você. Não mude!
Não tente entender os loucos, mesmo que a loucura tenha um pouco do que você é. Poucos param para pensar em algo durante a vida e os que param quase sempre o fazem da maneira errada, portanto não pense em nada. Não banque o crescidinho, você não é forte o bastante, not enough. O que me conforta é saber que meus sentimentos de inadequação são tão fortes quanto a ignorância dos que me cercam. Eu chego lá, um dia chego. Um dia minhas palavras serão vinho e cálice, um dia meus pensamentos serão pão e circo. Um dia meu melodrama será o retrato de uma realidade cotidiana e fantástica, como nunca antes alguém pudesse ter vivido.
Felicitações a você! Marcou-me profundamente por alguns dias! Isso, suma de perto de mim. A vida segue o seu fluxo eterno, incompreensível. Mas para mim, não há soluções, estou irremediavelmente jogado na sarjeta das emoções tranqüilas do amor. Se a paixão me queima com furor durante algum tempo, essa mesma paixão me cobra o preço mais caro, tornando-me pesadamente indiferente.Chega. Estas linhas têm muito de mim. Não me mostro, não preciso, não quero, não morrerei só. Estou paranóico e cansado. Penso que se alguém entendesse o meu olhar, Gabriel! Quantas coisas disse à você através deles! Ninguém percebe, nem mesmo os mais próximos a mim, que meu olhar é a Bíblia.
Estou a todo  momento contando histórias interessantíssimas com eles, histórias de outros tempos, histórias de outras pessoas enquanto minha boca fala sem parar de mim. As pessoas se cansam de me ouvir, mas são burras e não ouvem as histórias dos meus olhares.
Quantas vezes não contei à você sua própria história vista de um ângulo particular meu, mas você preferiu não ouvir! Na verdade, estávamos ocupados nos testando, devido à nossa condição.
Paro por aqui. Uma ressaca excruciante me força a dormir mais. Fique tranqüilo, se essas linhas são um desabafo isso funciona como um sinal de que não sou do tipo que incomodo ninguém. Orgulhoso demais e nem os cacos do meu coração de vidro conseguem ferir essa condição. Sempre irei me lançar em corpos alheios, sempre serei marcado profundamente por eles durante alguns dias e depois, nada mais. Sempre serei dominado pela indiferença que me é característica. Sempre tentarei deixar alguma marca em alguém, mas se não me marco interiormente como poderia marcar algo no exterior o suficiente para satisfazer os egos (meus e dos outros)?
Quero terminar abruptamente, portanto, boa sorte!”

Darlon recosta-se no sofá, pensativo e exausto. Percorre sexualmente as mãos pelo corpo e sorri. Sorri porque, quando tudo dói se sente vivo. Sorri lembrando-se de cenas vividas e contadas. Deixa o papel correr pelo velho sofá. Deixa algumas lágrimas molharem o rosto. Sabe que não há remédio para si mesmo. Aproxima-se da janela e pensa nos cacos da comparação com seu coração. Darlon está enganado. Seu coração é quente, viscoso e mole, mas ele ainda não sabe. E a cada ferida, a cada casca que lhe adiciona o caminho do tempo, o jovem está ainda mais próximo de uma dor maior: um amor de verdade, desses que poetas inconseqüentes e depressivos encontram apenas uma vez, para sempre.
Boa sorte a você que precisará dela, Darlon! Apenas tente sair vivo, quando chegar o momento. E não se esqueça de que felicidade é ilusão do proletariado. Beijos

Por: Darlon Silva (em um momento de quase loucura).

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Redenção

Por: Darlon Silva

Estou limpo. Redimi-me. A redenção veio direto do inferno fazendo-me perceber a bobagem que é se jogar nos braços de anjos pueris. Bobagem, há vida quentíssima lá fora. Mesmo que chovam águas paradas. São águas limpas, como a mais límpida chuva última no veraneio a lavar das folhas a crosta de tédio do pôr-do-sol. As lágrimas tornaram-se sorrisos, gargalhadas, talvez sarcásticas. Sinto-me forte, olhares que antes amedrontavam-me não mais me incomodam. Lanço minhas mãos (novamente, mas de outra forma) aos ares como a quem busca orgia com elementos naturais. Sim, fazer sexo com as luzes, me apaixonar pelas folhas, rolar entre a fertilidade deste solo e a virilidade de se queimar por dentro. Estou livre para me apaixonar por aí de novo. Mas, desta vez, há um fio maior de maturidade em mim.
É hora de curtir o dia que se apresenta claro como todas minhas ideias do que fazer no fim de semana com amigos. Descobri que há a necessidade de se aprender passando por pequeniníssimos percalços. Ah, os percalços, haha! Estes obstáculos, que de início te levam em um rodopio pelo salão das danças loucas dos que são irresponsáveis! Que te demonstram serem tão intensos, mas de fúteis te cansam antes do fim da primeira música,no baile recém-começado.
É felicidade extrema descobrir que o parceiro preferido é aquele que te excita e não o que entedia e faz bocejar, embora pareçam tão cheios de conteúdo!
E como bocejei! Agora, um pouco à frente de tudo, percebo que quase dormi. Assim, com o queixo apoiado em minhas mãos recordo-me de alguns momentos onde o elemento perturbador fez-se importante para mim. Mas, sinceramente? no fundo sempre esperei pelo fim. Não o fim no outro, mas o predestinado fim em mim. O término interior consola, mas mais que isso: redime.
Sabe porque não grito? Porque desperdicei itens mais importantes da minha vida no probleminha: palavras, meu caro! Oh, meu Deus, sinto muito por todas aquelas desperdiçadas no percalço. Perdão, palavras, caras amigas minhas! Espero que ao menos de inspiração sirvam a outros no processo de redenção. Eu espero,
realmente, que minha indiferença não mantenha, bem, as palavras longe de mim.
Consola-me ter feito de um percalço qualquer algo especial. Afinal, alguns quadros nada importantes para o mundo ganham cores fortes nos pinceis maiores de gênios que saibam pintar com serenidade. Gênios prontos para realçar a beleza do vazio e loucos o bastante para destruir a futilidade de nuances banais.É interessante  sentir-se tão pequeno, é sabido que a força está em reconstruir. Quanto mais visceral possa ter parecido ser para mim, o que vejo hoje são cores tão fracas, tão apagadas que… Lembrei-me de que enquanto algumas pessoas batem à sua porta e sempre há a indecisão entre o abrir ou não, outras nos contentamos em olhá-las na calçada, longe, pela fresta da janela de nossa privacidade.
Por mais que buracos tenham merecido atenção de minha parte, na tentativa de adentrá-los que hoje, sinceramente me parecem serem… Simples buracos! E buracos todos sabemos, apertados ou não, encontramos aos montes, inclusive nas sarjetas mais sórdidas! Buracos têm opinião? Expressam algo além de rugidos proeminentes de seus ecos nonsenses e cheios de pretensão? Blá, não entendo o dialeto buraquiano.
Enfim, estou pronto para mais uma, amigos! Bebamos à vida, bebamos aos amores pequenos, bebamos aos que vivem por aí, bebamos às nossas sutilezas, aos nossos pais combalidos cansados de nada ensinar. Bebamos aos exageros da juventude, aos erros idiotas dos mais novos, às palavras ditas de forma leviana, ao leva e traz gratuito e aqueles que tanto pensam ser que esquecem que a vida é feita de pensar.
Como diriam alguns, o intestino, tão instintivo como um touro no máximo de sua fúria, está preso ao pensamento. Sutileza citar aqui intestino. Volto a ser o mancebo das orgias romanas regadas a vinho. Volto a exalar soberba, o egoísmo de fingir-se fraco, volto ao sexo, meus companheiros, com fome maior do que jamais tive. Volto aos beijos realmente quentes, aos lábios sinceros no pau e às línguas safadas reais no ouvido. Volto aos corpos experientes, às palavras sacanas e ao cara  do lado que nunca enxerguei. Sim, sexo de verdade. E no fundo, o amor verdadeiro: aquele prazer descompromissado por quem mereça. Bacanal legal.
Adiante, próximo assunto, next! Pois por mais que subas na escada, por mais alto que te encontres, o prazer está em lançar o teu olhar blasé sobre as pedras que te proporcionaram a subida. Beijo; minha escada sobe e o percalço…
Bem… O percalço desce!

“Carinhosamente” por: Darlon Silva  (Me diverti um montão!)

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