Arquivo de janeiro \30\UTC 2012

A cabra e o rio

“…e nunca mais foram os mesmos…”

A cabra montanhesa é um animal passivo, pacífico e solitário. Depois de subir lentamente a montanha, apreciar toda a desgraça humana de sua posição favorecida, o bicho se instala no cume da montanha, a cabra fixa à terra de essência rígida. Através do contato com o solo suas energias são alimentadas o que torna o espírito da cabra sólido, mas também rústico. E assim vai sua vida, a ruminar o primeiro mato da terra, o mais rasteiro e involuntariamente criar o adubo inicial do solo fértil. E também assim são seus dias, cheios de métodos (para espantar o tédio interior), no cultivo do orgulho de serem tão calmos e cheios de paz.

Diz a lenda que, de tempos em tempos, a cabra sente a necessidade de variar sua rotina metódica de animal solitário. E começa a sua caminhada, lenta e paciente em busca de algo que a movimente, que a excite, ao menos por um tempo. Ou um pouco de companhia que não sejam suas irmãs cabras. Segundos, horas, meses, anos… O tempo não é importante, mas sim, o processo da caminhada e a mastigação que se faz de todo o caminho. De tão lentas, o próprio tempo da Terra se altera, de forma a envolver em casulo a (ingênua?) bichinha na busca pela (felicidade?) diversão logo abaixo.

Como quem sorve a vida a longos prazos, o animal cria estruturas de defesa a cada árvore, bicho ou o que quer que viva de diferente de si pelo caminho. Tais estruturas despedaçam-se durante as agruras do caminho, machucando e abrindo a pele da cabra a cada passo. Mesmo ferida, não muda seu ritmo. E continua a jogar pesadamente sua língua de encontro ao solo. Sua forma de perceber o mundo é esse, através do sabor áspero da língua, que arrasta a terra contra si mesma, sentindo o o solo em seu sabor mais primitivo, o da não existência do tempo e a sua contradição sendo prova incontestável do que é físico.

Cansada do caminho, a cabra arrasta os passos, mas não desiste de seu traçado, pois ouve um ruido cada vez mais audível por perto. Excitadíssima por já se achar próxima a seu objetivo. a cabra sorri feliz, um sorriso que lhe enche a alma, novidades! Seu passo lento agora tem uma certa graça, um gingado de prazer. A visão, tão nítida para as coisas de dentro, pela primeira vez se abre a grandiosidade do que lhe está à frente: o rio.

Com as lágrimas a lhe escorrerem o rosto, em um misto sincero de alegria, êxtase e dever cumprido, eis o rio! Tão lindo, olha que águas escuras, caudalosas! O mundaréu de água desce desenfreado o trajeto da vida, se esbarrando, arrancando, levando junto tudo que encontra. A rapidez e complexidade das emoções do rio, que chorava copiosamente a seus pés os prantos de um amor antigo, de primeiro assustou a cabra. Tonta, vê seu mundo girar, mas logo é preenchida por uma sensação inigualável, extinta no cume da montanha: o coração da cabra bate forte e rápido.

Depois então, tenta entender o que está vendo. Quem é esse? Louco, surtado, lambendo as encostas dos sentimentos, arranhando a língua, chorando os efeitos de suas ações, carregando o solo sagrado, levando a vida em seu leito, na velocidade das águas. Ao avistar a cabra, lá foi o caudaloso lépido, quero tragá-la, quero tragá-la. Quero receber um beijo seu, cabra! Beije-me! A cabra, ciente do poder da imagem de sua segurança, no intuito de acalmar tão raivoso rapaz, abaixa-se lentamente e toca com o lábio, aquele do solo e do início das coisas, o rio perplexo.

O encontro da cabra com o rio muda tragicamente o destino dos dois. O rio nunca mais será o mesmo, a cabra não irá esquecer nunca aquele momento. E é exatamente por aquele momento, que pode durar dias, anos ou milênios, que os dois estão destinados a sempre se encontrarem: a necessidade é mútua e a engrenagem animal pode seguir seu caminho. O rapaz, excitadíssimo, acaba por elevar ainda mais suas águas, criando um turbilhão espetacular de movimentos ao pé da montanha. As águas lavam a cabra suja da viagem, e acariciam, protegem e curam as feridas do bicho. Terra e água se misturam, o barro (testemunha ocular do encontro) torna-se prova irrefutável daquela união do masculino e do feminino. E é dessa união que florescerá o elemento criador do Homem, a dualidade entre seus instintos e a emoção inexplicável que nasce do desejo.

Mas tal cuidado tem seu preço. Após aliviada a dor da caminhada e absorvido o sabor das águas do rio, a cabra retira sua língua do interior das águas e prepara seu caminho de volta. O rio estupefato. Onde está a causadora de tamanho prazer? Porque lhe retirou de forma tão brusca a fonte do prazer que, em sua contagem de tempo, já lhe era cotidiano? As doses fortes e lentas de prazer não te pertencem atemporalmente, pois o atemporal não existe, diz a cabra. Com um sorriso nos lábios, a cabra retorna e prepara-se para sua volta ao cume da montanha, à tranquilidade do seu lar.

Sábia, sente pelas costas os disparos de emoção feitos à revelia pelo rio, inconformado. Quer porque quer carregar a cabra consigo, mesmo que isso a afogue. Quer mostrar o mundo, quer doar aventura, quer sofrer e que seja junto! Mas os dois sabem o preço, o rio engoliria a cabra e nessa busca dentro de si mesmo, percebe que nenhum dos dois é completo. Em um último rasgo apaixonado, renuncia à sua própria natureza de correr livremente e lança um pouco de sua água para cima da montanha. Logo o líquido escorre pelos grãos de areia e pedra e acabam por voltar aos seu corpo, forçando-o a seguir adiante.

A cabra reinicia sua subida de forma transformada, certa de que precisava dessa experiência para acreditar que não há somente o gosto do solo no mundo. O amante não percebe, tal violento é o seu fluxo e acaba por banhar outros animais pelas barragens do caminho. Mas os dois sabem, aquele contato, aquele momento, não serão esquecidos, fazem parte da história dos dois. Do alto, a cabra retira de suas lembranças a força para continuar a testar o gosto dos caminhos. Prossegue na pachorra de viver sozinha, embora calejada.

Ao pé da montanha, o sentimental desce, viciado, desenfreado. Machucando as árvores, levando vida, destruindo o solo, batendo contra as pedras. Nos poucos segundos que pensa, o rio se conforma de que assim foi melhor. A cabra ao alto e ele ali, ainda inebriado de todas aquelas fortes sensações. De vez em quando, o rio lança seu olhar para cima da montanha e sorri, porque sabe que a cabra também se curva, a seu tempo, para ouvir o barulho das águas de amor que, como quem acena de longe, ele faz questão lançar ao ar todos os minutos. Então faz-se certo um novo encontro, em alguma outra paragem. Atemporal.

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Índigo

De leve, ele corre pelas encostas barreadas, além do limite da sua criatividade. E vai desenhando, reformulando as listras trêmulas de suas paixões no quadro. Revive-as entre suspiros de saudades e surpresas ao relembrá-las. No quadro, a terra do chão que pisava na infância não é tão viva quanto a original, mas sustenta a obra de arte. Cigarro como companheiro e conselheiro oficial, o pintor tem a pele suada e queimada, da cor do Sol. A trilha sonora rápida envolve o processo criativo, que merda de texto é esse?

Sou eu mesmo, o pintor quem o escreve. E estou pintando, não escrevendo, no momento. Dá licença.

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Estou indo para ficar

Embarcarei no trem da madrugada para rever um grande amor. Ansioso, aguardo a chegada do grande veículo que me transportará até aquele que já me trouxe alegria e felicidade. As malas entre as minhas pernas, arrumadas às pressas, expõem meu nervosismo. Dentro delas, poucas roupas, pouca informação mas muitas memórias. Acendo um cigarro, estou só na plataforma, tudo passa devagar. O vento leve teima em me manter na realidade da espera, meus dentes se debatem, uns contra os outros. O cigarro preenche meu pulmão, afasta o frio que sinto e impede o congelamento dos meus lábios. Nas fumaças que sobem aos céus, divinas, formam-se imagens entrecortadas do rosto dele no passado em que vivíamos juntos. E junto ao prazer de inalar substâncias tóxicas lembro-me do nosso sexo e dos planos que fazíamos ao fumar no pós-prazer. Os corpos nus sobre o colchão velho, a TV ligada em algum canal desinteressante, ali o que me aprazia era ouvi-lo conjecturar sobre passado, presente e futuro. Os olhos do moço brilhavam enquanto dissertava sobre os desencontros da vida até me conhecer. Enquanto ele falava, eu percorria lentamente com os dedos os traços do seu rosto, os lábios lindos, acariciava a barba mal feita, a ossatura do pescoço, em uma aula de anatomia particular que ficava mais íntima à medida em que meus dedos vagarosamente explorava as partes inferiores daquele mundo o qual eu não quis nunca abandonar.

Ainda explanando sobre os mistérios e coincidências que cercavam o nosso amor, ele se levantava, mais uma xícara de café, uma zapeada rápida pelos canais da TV velha, um abrir e fechar feliz de persianas e coçava timidamente a virilha. Sentava-se do meu lado, olhava fixamente nos meus olhos e me envolvia no mistério que rondava a sua personalidade de vida e morte. Eu tentava perceber no fundo daqueles olhos o real significado das coisas que ele me dizia mas não conseguia decifrar o enigma. Era como se a boca dissesse coisas com as quais o coração não concorda. Mas sendo mestre na arte de me encantar, os segredos daqueles olhos eram impossíveis de serem alcançados. Na verdade nunca desejei isso. Tinha medo, receio. Minha ansiedade aumentava, minhas pálpebras tremiam e ele, ciente de seu poder sobre mim, aninhava-me em longos e silenciosos abraços soturnos.

Eu aproveitava aquele abraço para olhar o mundo lá fora, pelas frestas da persiana fechada e nada via. Somente o reflexo do nosso abraço. As costas daquele homem, fortes, e o espanto estampado nos meus olhos mareados de emoção. Quem dera ter fugido enquanto ainda era tempo! Quem dera não ter me rendido, não ter me entregado! Mas eu sequer conseguia calcular o tempo dentro daquelas quatro paredes!

O abraço era interrompido quando eu sentia que o desejo de mim aumentava no corpo dele e então permitia que ele me invadisse por completo. Eu não reclamava. Me abria por inteiro, fisica e emocionalmente.E a dor da invasão era quase que um consolo para minha alma combalida naquele início de paixão. Ao menos sentindo dor, provo a mim mesmo que ainda estou vivo. Lembranças fortes sumindo e evanescendo junto à fumaça maligna do meu cigarro. Ninguém por perto, não me acanho quando as lágrimas rolam sobre meu rosto, não ligo. No grande relógio desta estação o tempo está parado, não enxergo a falsa hora. Acendo outro cigarro, quero mais lembranças sumindo e subindo pelo ar. Um assobio me assusta, era apenas um pássaro noturno. De repente me sinto seco, frio. Não consigo me lembrar com perfeição de como era o rosto dele, só me lembro daquele órgão que me penetrava. Com exatidão, o tamanho, o cheiro, as veias, a pele, a cor. Terá sido no fundo algo estritamente sexual? Creio que não, senão não estaria eu aqui, madrugada adentro aguardando o trem para a casa dele.

Seguro com força as passagens no bolso da jaqueta. Agarro o pequeno espelho no bolso da calça, uma rápida olhada, arranco os fiapos de cabelo fora do lugar. Estou bonito. Creio que cheiroso também. Apresentável. Releio a carta recebida a cinco dias atrás: “Amor, venha me ver, tenho coisas a dizer.” Curioso, ele sempre teve coisas a me dizer, nunca as dizia. Seria apenas mais uma recaída? Ou desta vez ele confessa que me ama de uma vez por todas? Afinal, já se passaram sete anos. Tenho medo de que ele não me reconheça, mudei fisicamente. Tenho medo que ele não goste mais do meu corpo, não suportaria isso. Quando chegar lá, não sei o que vou dizer. Mas dou qualquer coisa para olhar naqueles olhos cruéis novamente. Estou preparado. Nunca fui alguém louco, nem drogas nunca usei. Não sei o que me impele a viajar de forma tão tresloucada até ele. Na verdade sei. nunca suportei o fato de ter sido abandonado. Preciso ir lá, beijá-lo, sugar dele algumas verdades e deixá-lo sem dor na consciência.

Opa, lá vem o trem. Agarro minhas pesadas malas, o barulho ensurdecedor dos trilhos me assusta, mas continuo firme. E é ao embarcar a caminho do lar daquele que me abandonou que me dou conta: qual o motivo de levar tantas malas, se é apenas uma visita fortuita para acertar coisas do apssado? Porque estou levando tanta coisa? Isso eu também sei o porquê. No mais profundo esconderijo emocional da minha mente, onde impera as ordens do coração, eu estou implorando para que ele me abrace em silêncio novamente enquanto eu percebo que na velha persiana fechada, o reflexo dentro daquele quarto continua sendo somente o meu e o dele. Sem a necessidade de uma segunda partida. Estou indo para ficar.

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A culpa

Aproximo-me, de leve. Quero ver como você está. Quero sentir de novo o cheiro do nosso colchão, quero ficar do lado de fora te abraçando contra a parede. Percorro seu corpo com os dedos, num misto de saudade e desejo. As lágrimas que escorrem, você nunca vê, nunca viu. Estou tão próximo de algo maior, mas nesses tempos terríveis e mensais da minha vida, não consigo me explicar sem cair em infinitos mal entendidos.

Nessa relação perpetuada no nosso ninho dos desesperos, é com comida e sexo que preenchemos um vazio enorme existencial. Não sou mais o balão colorido, leve e instigante que você puxava para baixo. Devo beirar o tédio. Mas o meu quarto ainda é quente por você. Meu amor tedioso é cheio de fogo, de desejo, de loucura. Sou o maior, no quesito gastar adjetivos ao tratar de ti.

Prendo o que sinto em uma garrafa com bolhas amarelas psicodélicas, trancadas a ferro, fogo e maconha. Dentro da garrafa úmida, as bolhas amarelas explodem, elas têm o seu rosto. Acariciam-me o rosto, em um gesto de carinho profundo que me comove. Não quero sair do interior da garrafa, mas há vida lá fora. E é quando você não está perto que meus medos se sobressaem.

Sem sua companhia parruda no que me acostumei a chamar de cotidiano, minhas certezas pré-definidas (como quem define a cor da TV nova) são rasgadas ao meio, liberando e espalhando as dúvidas como a plumas e penas de ganso. Caraminholas, contos da carochinha, pedidos de desculpa, perguntas que ficam sem respostas, mensagens soltas no espaço cibernético ecoam em minha mente doentia.

Egoísmo meu, peço pelo seu corpo nos meus braços, doem-me os ossos sem seus abraços.  Mergulho por aí, nas doideras da vida, perdendo velhas consciências de mim mesmo e assimilando um mar de oportunidades que não se concretizam. Meus olhos dizem tanto, não espero que você saiba lê-los, trata-se de um dialeto antigo, cravado nas pedras do mar morto que ousei chamar de coração.

Estou aqui, peito e corpo abertos e a palavra que resume o meu dia sem você é desespero. Viver em função de outro, por enquanto, é o motivo da minha teimosia em sorrir para loucos e malucos na rua. Necessidade física, saca? Pareço ríspido a alguns, mas talvez falte açúcar nesse café que insisto em tomar. Sei o que você quer de mim, mesmo que não consiga de pronto, corresponder. A pergunta não cala e ecoa enquanto os velhos vinis ainda tocam no aparelho digital: o que eu quero de você, meu velho rapaz? Ou especificando: o que eu ‘realmente’ quero de você?

Suas marcas estão ficando mais fortes, meu pulso acelerado. E eu já previ o final dessa história de paixão.

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