Arquivo de abril \18\UTC 2011

Uísque com guaraná

E a música de Elis ainda ecoa em minha cabeça. Parece que foi ontem, mãe.
Eu era criança, sentado naquele ambiente de luzes, fumaça e muitos cigarros. As garrafas passavam na minha frente quase que na mesma velocidade dos corpos das suas amigas. Os casais se tocando, se trocando, beijos carregados de pecado. O meu olho vibrava, iluminando o ambiente mais que o neon barato. Minha estatura permitia com que eu cometesse um pecado a cada noite. Descia do nosso quarto, tão frio! E adentrava aquele mundo quente, frenético, poético, sujo. A pista do salão estava também suja. Admirava-me a diversidade dos calçados que ali desfilavam, bailando. Eu via sapatos lustrosos, de gente rica. Eu via o sapato do malandro Joaquim, surrado, mas como bailava! Tinha o salto das meninas, traiçoeiros, sorrateiramente forçando aqueles homens à paixão. Os saltos grossos, ora finos, ora médios. Ah, mãe, aquilo me embebedava, mais que a vodca barata servida nos copos daquela gente!
Então meus olhinhos de criança imberbe subiam pelas canelas (hoje tediosamente chamadas de panturrilhas). Aquelas canelas de fora das garotas me excitavam tremendamente, mamãe! Subia meus olhos pelas pernas, a força de todas aquelas pernas! Na minha mente de criança, eu divagava, contava os passos de fulano, percebia os trejeitos do ciclano, desconfiava das viradas daquele homem lá. Mas eram as garotas, sim, que me hipnotizavam. Aquelas pernas lisas, tiravam-me do meu mundo infantil. Corria meus olhos por todo o corpo das suas amigas. Os bumbuns, barrigas perfeitas, seios duros, braços estendidos com delicadeza no ar. O rodopio, o balanço das cadeiras, a poesia perfeita que os cachos da Samara formavam no ar!
Paralisado por aquele clima de sedução, sem ainda entender, eu sonhava tocar aquelas garotas. Fechava meus olhos, Elis cantava… A sensação era muito vívida, eu podia tocá-las, sentir o cheiro de perfume doce, os cachos roçando meu rosto. Os lábios, aquele gosto forte de cigarro na boca, eu ficava com o corpo suado, e não era só pela falta de ventiladores no local não, mãe.
Mas eis que o salão era tomado por uma expectativa, todos os olhos ansiosos. O palquinho da boate, mal iluminado pra chuchu. As luzes se acendiam, tremulando. Do fundo da cortina maltrapilha, aparecia você, mãe. Você dublava Elis. Os olhos pintados, um vestido de diva das antigas, entrava cantando levemente. Os homens paravam, bebericavam sem parar seus copos cheios de bebidas e drinques. Você vinha, como uma bruma leve. Andava devagar pelo palco. Sorria olhando para o microfone, e aqueles homens, garotões, peões, babando por você. As outras moças aproveitavam, retiravam-se, retocavam a maquiagem, reclamavam de alguém.
Mãe, você dominava todos ali. Os seus lábios coloridos de vermelhos, o vestido de cor rubra, aquele olhar doce, o rosto perfeito, que dizem que puxei de você. O seu corpo, mãe, curvava-se, flexível. Os homens murmuravam entre si, queriam saber seu nome. Eu sabia mãe, eles não.
No balanço da música, dois pra lá, dois pra cá, você descia do palquinho, aproximava-se de qualquer garanhão que estivesse mais próximo. Continuava a dublar a música. Cantava-lhe no ouvido “meu coração traiçoeiro”. Os homens sorriam. “Descompassado de amor”. Mãe, seu corpo flutuava naquela pista. Seu perfume gardênia invadia a pista de dança. Suas mãos entrelaçadas aos pescoços viris daquela gente, mãe! Daqueles homens sem sonhos!
E eu te perdoava. Cada beijo, cada noite, cada falso brilhante. Cada ressaca e mau humor. Te perdoava, porque sabia que você era o sonho daquele povo. Você os iluminava, salvava aqueles corpos maltratados pela brutalidade da vida. Mãe, eles te amavam, talvez mais do que eu mesmo te amei!
Então você retornava ao palco, embriagada de todo aquele uísque com guaraná. Retirava lentamente as luvas longas do braço. Seu olhar, não sei, adquiria um certo tom de frenesi. Revirava os olhinhos, mãe, eu sempre ria quando você fazia isso pra mim dentro do quarto! Dividir isso com aqueles homens era engraçado, eu ria, ria. Enquanto lentamente, você se despia do seu vestido de gala, as mulheres e homens tomavam conta novamente do salão. Mas tudo já tinha outro jeito, outro cheiro. O seu vestido era único por ali. Brilhava mais que as saias rodadas daquelas meninas. Você era chique, mãezinha!
Daí que começavam a cair umas coisas bem brilhantes no palco, você sorrindo lindamente. A música no finalzinho. Você abraçava pela última vez o microfone, arfando bastante. Revirava os olhos mais algumas vezes, terminando os versos da música, lindamente mesmo! E eu, descompassado de amor por você, minha cabeça girava… Eu tinha muito orgulho.
Mãe, foi assim por tanto tempo! Eu descia, ninguém me notava. Quando a cortina fechava e levava você pro mistério que é o camarim dos artistas verdadeiros, eu subia rápido para o quarto. Você chegava mais ou menos meia hora depois. Eu fingindo que dormia, você me beijava o rosto, cheiro bom de gardênia. Então dormíamos, eu com a promessa de ter aquelas mulheres, elas que tantas vezes, em meus sonhos, tinham o seu rosto, vai entender né mãe…
Mas isso faz tanto tempo! O tempo passa vagarosamente pra mim, mas é todo dia a certeza de que me lembrarei de você. Naquele dia tudo aconteceu muito rápido. Eu desci, como de costume. Assisti ao baile sem você, excitei-me pelas garotas, capturei para minha memória aqueles corpos e perfumes. Vibrei com a ansiedade da sua chegada, do seu show. Você estava particularmente bonita naquele show. Revirou os olhinhos, dançou, levitou, bailou pelo salão. Conquistou, devolveu os sonhos aqueles rapazes, e como você estava feliz!
Porém, antes de se despedir daqueles que te aplaudiam tanto, você terminou a música, revirando os olhos como sempre fazia. E pela primeira vez, durante todo aquele tempo, naquele clube, seus olhos bateram frente a frente aos meus. Mãe, meu coração gelou. Empalideci. Fiquei paralisado. Minhas pernas bambearam. Como se tivesse cometido o pior dos pecados naquele lugar imundo. O jeito que você me olhou transpassou meu corpinho, deu um nó no meu estômago. E seus olhos não saíam de mim!
Você me olhou fixamente, não sei se foram duas ou três, mas as lágrimas escorreram no seu rosto, rapidinho. Eu não soube o que fazer. Não vi a cortina se fechar, não vi você sumir do palco. Fiquei ali parado, olhando os casais voltando a dançar. Ninguém havia me notado, como sempre. Não sei quanto tempo se passou, talvez uma eternidade. Muito tempo depois, me dei conta de que estava ali há horas. As mocinhas já retiravam-se aos quartos com seus cavalheiros. Lixo no chão, alguém no bar me encontrou. Enxotaram-me do salão, como a uma criança, mãe! Eu não era criança, não!
Então subi rapidamente ao quarto. Você não estava lá. Suas roupas não estavam lá. Havia um bilhete molhado, sobre a cômoda. Um cheiro de gardênia no ar, insuportável. Meu choro saiu sem querer, convulsivamente. Procurei você pelos cantos do nosso pequeno quarto. Todos os cantos. Quebrei os copos, os discos. Abriram a porta. Eu esmurrava a parede. Me seguraram, me beijaram, choraram comigo, me beijaram.
No banheiro, você estava lá. Não me deixaram te ver mãe! Eu não era criança! Mas lembro de vislumbrar um rosto pálido, sem cor, sem sangue, pairando acima da pia. E como todos os dias eu te assistia no salão, você estava ali, mãe. Flutuando pelo chão do banheiro. Seus pés não tocavam aquele chão imundo. Seu vestido era de um vermelho vivo, seu rosto branco como a neve que nunca vi. Seus pés bailavam sozinhos, soltos no ar. O cabelo estava magnífico.
Minha cabeça rodando. E o perfume no quarto, quando me tiraram de lá, gardênia. E seus olhos, bem, revirados. Lindos, olhando fixamente para mim. Mãe, eu acho que te amava em cada corpo, de cada moça. E hoje, embriago-me diariamente, pra lembrar-me de você: uísque com guaraná.

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