Arquivo de julho \19\UTC 2011

Trancando a porta

 

 

Se sei da fragilidade dos meus pés, porque insistir em pisar em cacos? Eu nasci pra pedregulhos, não gosto da areia da praia. Carrego o mundo nas costas e cada vez mais piegas. Nasci do lado feio da moeda. Não gosto dos sorrisos amarelos, não gosto dos olhares aveludados. E cá estou novamente, preterindo o conforto e dando as mãos trêmulas ao horror. Tenho ódio dos amaciantes, impregnado em mim está o cheiro do visceral.

É como cuspir no quadro bonito na parede a cada noite, desejando corrompê-lo, desmistificá-lo. Não sou apegado a detalhes, esqueço o meu, o seu e o nosso nome depois do sexo. Mas é de propósito. É torcer para ouvir a porta se fechar enquanto sussuro “Ainda bem!”.

Eu vivo na incerteza da próxima jogada, do medo e do mistério da próxima carta. Porque comigo o final é trágico, hoje ou amanhã. Meu lago é escuro, frio, profundo e sinistro. Meu projeto “minha vida” anda às traças, que seja comido, que seja devorado. Algo violento está despertando na antes tão doce alma que me foi imposta, fui subjugado quando nasci. Se meus olhos estampam felicidade, é apenas uma máscara, Sartre, uma máscara.

Um dia meus vômitos perderão a graça, mas ninguém terá ainda me alcançado por dentro. Eu termino por aqui, não vou me demorar. Vê se pega a sua jaqueta, suas chaves, saia por onde entrou. Sem poesia, sem firulas, sem versos bonitos. Porque eu não tenho intenções com você. Muito menos comigo.

Não deixe marcas de batom no espelho, ele não te pertence. Não me beije, meus lábios não são seus. Não tente chegar perto, não puxe minha válvula de escape.

Passe do outro lado da rua e não me mostre seu rosto. Porque não quero reconhecer minha mediocridade em você. E eu não estou aqui.

 

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