Arquivo de fevereiro \07\UTC 2012

A falta física (Eu sou a personificação do exagero)

Frustrado, dolorido, cortado ao meio, coração em frangalhos, mesmo assim ninguém ocupa o lugar dele no momento. Ele é um canalha mas é difícil imaginar a vida sem aquele corpo, aquela fonte repleta de sensações que entupiram-me de prazer em alguns momentos. A voz, a respiração, o olhar vagabundo, o toque das mãos… E sempre fica a pior das faltas, aquela que não tem caráter: a falta física.

Essa falta física não conhece a moral vigente, não respeita as regras, passa longe da dignidade. E ela sempre vem, e sinto falta dos abraços, ah, os abraços! Necessito dos beijos, do colo, dos olhares cúmplices, dos sorrisinhos de amantes. De todas aquelas sensações que o cérebro produz e sempre acho que são provenientes do outro. Insisto em criar essa ilusão de que é ele o responsável por tanta serotonina invadindo meu sistema nervoso, mas não é.

Costume e rotina: a falta física é a mais cruel, irracional, instintiva e insistentemente carente. O apego não é feito somente de uma idealização da pessoa amada, da supervalorização de suas qualidades ou coisa do tipo. O apego é a comprovação rígida e científica de que sou o extremo em tudo que faço, a verdadeira personificação do exagero.

Então radicalizo que jamais sentirei novamente aquele prazer. Que era único, inigualável. Corrói-me pensamentos de que estará ele servindo da ambrosia quente daquele corpo a outra pessoa, me pego chorando, esmurrando o pobre travesseiro, vontade de lhe dizer mil verdades. E como um vulcão maluco, boto para fora minhas larvas quentes, destruo tudo, arrasto as coisas. Eu sou assim, grito, rasgo, vou no e ao fundo de tudo. Com as provas de sua desonestidade em mãos, sinto-me inútil, um sorriso e não sei o que dizer. Mas eu falo, falo como se não houvesse amanhã!

E é exatamente nisso que me diferencio dele: a coragem em dizer tudo! No fundo eu sei o quão canalha ele é, mas quero cortar, ver sangrar, botar para doer! E jogar tudo na cara, em uma vingança às avessas, que dói mais em mim do que nele e ostentar que sei tudo sobre ele! Quando na verdade, devo saber dele o que não sei de mim, deveria aprender a respeitar meus limites, impôr meu amor próprio ao excruciante espetáculo causado pela dor da falta física.

Já me sinto nu diante das conversas, ejaculo o pus latejante da minha dor na cara das pessoas, dos amigos, cuspo nos animais que passam, prevejo mortes violentas, acordo com pesadelos horríveis e acabo por pesar a vida dos que se sentem leves naquele momento. E na vida de imposições que levo, atravesso a alegria dos outros, dou marretadas em seus ombros e marco à ferro e fogo o rosto de quem passe à minha frente com meu semblante horrendo.

Sei que o amanhecer não tarda, mas meu relógio está parado em alguém. A falta física expulsa-me de casa, não quero confrontar os móveis, o colchão, o ninho do amor. Mas amanhece sem pressa, enquanto as baratas trituram vagarosamente a madeira do sofá. O café, esfriou. A comida, estragou. Ele, não se importa. Restou-me apenas minha dor. E a certeza cambaleante, sonâmbula e embriagada de que o pôr do sol me trará uma nova paixão: e mais um recomeço na dor que crio cotidianamente.

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