A cabra e o rio

“…e nunca mais foram os mesmos…”

A cabra montanhesa é um animal passivo, pacífico e solitário. Depois de subir lentamente a montanha, apreciar toda a desgraça humana de sua posição favorecida, o bicho se instala no cume da montanha, a cabra fixa à terra de essência rígida. Através do contato com o solo suas energias são alimentadas o que torna o espírito da cabra sólido, mas também rústico. E assim vai sua vida, a ruminar o primeiro mato da terra, o mais rasteiro e involuntariamente criar o adubo inicial do solo fértil. E também assim são seus dias, cheios de métodos (para espantar o tédio interior), no cultivo do orgulho de serem tão calmos e cheios de paz.

Diz a lenda que, de tempos em tempos, a cabra sente a necessidade de variar sua rotina metódica de animal solitário. E começa a sua caminhada, lenta e paciente em busca de algo que a movimente, que a excite, ao menos por um tempo. Ou um pouco de companhia que não sejam suas irmãs cabras. Segundos, horas, meses, anos… O tempo não é importante, mas sim, o processo da caminhada e a mastigação que se faz de todo o caminho. De tão lentas, o próprio tempo da Terra se altera, de forma a envolver em casulo a (ingênua?) bichinha na busca pela (felicidade?) diversão logo abaixo.

Como quem sorve a vida a longos prazos, o animal cria estruturas de defesa a cada árvore, bicho ou o que quer que viva de diferente de si pelo caminho. Tais estruturas despedaçam-se durante as agruras do caminho, machucando e abrindo a pele da cabra a cada passo. Mesmo ferida, não muda seu ritmo. E continua a jogar pesadamente sua língua de encontro ao solo. Sua forma de perceber o mundo é esse, através do sabor áspero da língua, que arrasta a terra contra si mesma, sentindo o o solo em seu sabor mais primitivo, o da não existência do tempo e a sua contradição sendo prova incontestável do que é físico.

Cansada do caminho, a cabra arrasta os passos, mas não desiste de seu traçado, pois ouve um ruido cada vez mais audível por perto. Excitadíssima por já se achar próxima a seu objetivo. a cabra sorri feliz, um sorriso que lhe enche a alma, novidades! Seu passo lento agora tem uma certa graça, um gingado de prazer. A visão, tão nítida para as coisas de dentro, pela primeira vez se abre a grandiosidade do que lhe está à frente: o rio.

Com as lágrimas a lhe escorrerem o rosto, em um misto sincero de alegria, êxtase e dever cumprido, eis o rio! Tão lindo, olha que águas escuras, caudalosas! O mundaréu de água desce desenfreado o trajeto da vida, se esbarrando, arrancando, levando junto tudo que encontra. A rapidez e complexidade das emoções do rio, que chorava copiosamente a seus pés os prantos de um amor antigo, de primeiro assustou a cabra. Tonta, vê seu mundo girar, mas logo é preenchida por uma sensação inigualável, extinta no cume da montanha: o coração da cabra bate forte e rápido.

Depois então, tenta entender o que está vendo. Quem é esse? Louco, surtado, lambendo as encostas dos sentimentos, arranhando a língua, chorando os efeitos de suas ações, carregando o solo sagrado, levando a vida em seu leito, na velocidade das águas. Ao avistar a cabra, lá foi o caudaloso lépido, quero tragá-la, quero tragá-la. Quero receber um beijo seu, cabra! Beije-me! A cabra, ciente do poder da imagem de sua segurança, no intuito de acalmar tão raivoso rapaz, abaixa-se lentamente e toca com o lábio, aquele do solo e do início das coisas, o rio perplexo.

O encontro da cabra com o rio muda tragicamente o destino dos dois. O rio nunca mais será o mesmo, a cabra não irá esquecer nunca aquele momento. E é exatamente por aquele momento, que pode durar dias, anos ou milênios, que os dois estão destinados a sempre se encontrarem: a necessidade é mútua e a engrenagem animal pode seguir seu caminho. O rapaz, excitadíssimo, acaba por elevar ainda mais suas águas, criando um turbilhão espetacular de movimentos ao pé da montanha. As águas lavam a cabra suja da viagem, e acariciam, protegem e curam as feridas do bicho. Terra e água se misturam, o barro (testemunha ocular do encontro) torna-se prova irrefutável daquela união do masculino e do feminino. E é dessa união que florescerá o elemento criador do Homem, a dualidade entre seus instintos e a emoção inexplicável que nasce do desejo.

Mas tal cuidado tem seu preço. Após aliviada a dor da caminhada e absorvido o sabor das águas do rio, a cabra retira sua língua do interior das águas e prepara seu caminho de volta. O rio estupefato. Onde está a causadora de tamanho prazer? Porque lhe retirou de forma tão brusca a fonte do prazer que, em sua contagem de tempo, já lhe era cotidiano? As doses fortes e lentas de prazer não te pertencem atemporalmente, pois o atemporal não existe, diz a cabra. Com um sorriso nos lábios, a cabra retorna e prepara-se para sua volta ao cume da montanha, à tranquilidade do seu lar.

Sábia, sente pelas costas os disparos de emoção feitos à revelia pelo rio, inconformado. Quer porque quer carregar a cabra consigo, mesmo que isso a afogue. Quer mostrar o mundo, quer doar aventura, quer sofrer e que seja junto! Mas os dois sabem o preço, o rio engoliria a cabra e nessa busca dentro de si mesmo, percebe que nenhum dos dois é completo. Em um último rasgo apaixonado, renuncia à sua própria natureza de correr livremente e lança um pouco de sua água para cima da montanha. Logo o líquido escorre pelos grãos de areia e pedra e acabam por voltar aos seu corpo, forçando-o a seguir adiante.

A cabra reinicia sua subida de forma transformada, certa de que precisava dessa experiência para acreditar que não há somente o gosto do solo no mundo. O amante não percebe, tal violento é o seu fluxo e acaba por banhar outros animais pelas barragens do caminho. Mas os dois sabem, aquele contato, aquele momento, não serão esquecidos, fazem parte da história dos dois. Do alto, a cabra retira de suas lembranças a força para continuar a testar o gosto dos caminhos. Prossegue na pachorra de viver sozinha, embora calejada.

Ao pé da montanha, o sentimental desce, viciado, desenfreado. Machucando as árvores, levando vida, destruindo o solo, batendo contra as pedras. Nos poucos segundos que pensa, o rio se conforma de que assim foi melhor. A cabra ao alto e ele ali, ainda inebriado de todas aquelas fortes sensações. De vez em quando, o rio lança seu olhar para cima da montanha e sorri, porque sabe que a cabra também se curva, a seu tempo, para ouvir o barulho das águas de amor que, como quem acena de longe, ele faz questão lançar ao ar todos os minutos. Então faz-se certo um novo encontro, em alguma outra paragem. Atemporal.

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  1. #1 por Volcofissauro (@Volcof) em 16/05/2012 - 10:23 pm

    Gostei do texto. Uma alegoria interessante que, honestamente, diz muito sobre as pessoas.
    A possibilidade de se identificar com a cabra isolada no alto da montanha é, ao mesmo tempo, despertar da consciencia de paz e tranquilidade que nutrimos, mas também melancolia da solidão e da situação diferenciada de quem observa (e não de quem é observado).
    “Sua forma de perceber o mundo é esse, através do sabor áspero da língua, que arrasta a terra contra si mesma, sentindo o o solo em seu sabor mais primitivo…” – Isso diz muito às pessoas que, assim como eu, sentem o gosto amargo da vida.

  2. #2 por Línicker Siqueira da Silva em 02/08/2012 - 1:58 pm

    Amei seu blog,vc não é 10 vc é 1.000!Que tal escrever algo que lembre sobre as maluquices que vivemos.SAUDADES!!!!

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