Estou indo para ficar

Embarcarei no trem da madrugada para rever um grande amor. Ansioso, aguardo a chegada do grande veículo que me transportará até aquele que já me trouxe alegria e felicidade. As malas entre as minhas pernas, arrumadas às pressas, expõem meu nervosismo. Dentro delas, poucas roupas, pouca informação mas muitas memórias. Acendo um cigarro, estou só na plataforma, tudo passa devagar. O vento leve teima em me manter na realidade da espera, meus dentes se debatem, uns contra os outros. O cigarro preenche meu pulmão, afasta o frio que sinto e impede o congelamento dos meus lábios. Nas fumaças que sobem aos céus, divinas, formam-se imagens entrecortadas do rosto dele no passado em que vivíamos juntos. E junto ao prazer de inalar substâncias tóxicas lembro-me do nosso sexo e dos planos que fazíamos ao fumar no pós-prazer. Os corpos nus sobre o colchão velho, a TV ligada em algum canal desinteressante, ali o que me aprazia era ouvi-lo conjecturar sobre passado, presente e futuro. Os olhos do moço brilhavam enquanto dissertava sobre os desencontros da vida até me conhecer. Enquanto ele falava, eu percorria lentamente com os dedos os traços do seu rosto, os lábios lindos, acariciava a barba mal feita, a ossatura do pescoço, em uma aula de anatomia particular que ficava mais íntima à medida em que meus dedos vagarosamente explorava as partes inferiores daquele mundo o qual eu não quis nunca abandonar.

Ainda explanando sobre os mistérios e coincidências que cercavam o nosso amor, ele se levantava, mais uma xícara de café, uma zapeada rápida pelos canais da TV velha, um abrir e fechar feliz de persianas e coçava timidamente a virilha. Sentava-se do meu lado, olhava fixamente nos meus olhos e me envolvia no mistério que rondava a sua personalidade de vida e morte. Eu tentava perceber no fundo daqueles olhos o real significado das coisas que ele me dizia mas não conseguia decifrar o enigma. Era como se a boca dissesse coisas com as quais o coração não concorda. Mas sendo mestre na arte de me encantar, os segredos daqueles olhos eram impossíveis de serem alcançados. Na verdade nunca desejei isso. Tinha medo, receio. Minha ansiedade aumentava, minhas pálpebras tremiam e ele, ciente de seu poder sobre mim, aninhava-me em longos e silenciosos abraços soturnos.

Eu aproveitava aquele abraço para olhar o mundo lá fora, pelas frestas da persiana fechada e nada via. Somente o reflexo do nosso abraço. As costas daquele homem, fortes, e o espanto estampado nos meus olhos mareados de emoção. Quem dera ter fugido enquanto ainda era tempo! Quem dera não ter me rendido, não ter me entregado! Mas eu sequer conseguia calcular o tempo dentro daquelas quatro paredes!

O abraço era interrompido quando eu sentia que o desejo de mim aumentava no corpo dele e então permitia que ele me invadisse por completo. Eu não reclamava. Me abria por inteiro, fisica e emocionalmente.E a dor da invasão era quase que um consolo para minha alma combalida naquele início de paixão. Ao menos sentindo dor, provo a mim mesmo que ainda estou vivo. Lembranças fortes sumindo e evanescendo junto à fumaça maligna do meu cigarro. Ninguém por perto, não me acanho quando as lágrimas rolam sobre meu rosto, não ligo. No grande relógio desta estação o tempo está parado, não enxergo a falsa hora. Acendo outro cigarro, quero mais lembranças sumindo e subindo pelo ar. Um assobio me assusta, era apenas um pássaro noturno. De repente me sinto seco, frio. Não consigo me lembrar com perfeição de como era o rosto dele, só me lembro daquele órgão que me penetrava. Com exatidão, o tamanho, o cheiro, as veias, a pele, a cor. Terá sido no fundo algo estritamente sexual? Creio que não, senão não estaria eu aqui, madrugada adentro aguardando o trem para a casa dele.

Seguro com força as passagens no bolso da jaqueta. Agarro o pequeno espelho no bolso da calça, uma rápida olhada, arranco os fiapos de cabelo fora do lugar. Estou bonito. Creio que cheiroso também. Apresentável. Releio a carta recebida a cinco dias atrás: “Amor, venha me ver, tenho coisas a dizer.” Curioso, ele sempre teve coisas a me dizer, nunca as dizia. Seria apenas mais uma recaída? Ou desta vez ele confessa que me ama de uma vez por todas? Afinal, já se passaram sete anos. Tenho medo de que ele não me reconheça, mudei fisicamente. Tenho medo que ele não goste mais do meu corpo, não suportaria isso. Quando chegar lá, não sei o que vou dizer. Mas dou qualquer coisa para olhar naqueles olhos cruéis novamente. Estou preparado. Nunca fui alguém louco, nem drogas nunca usei. Não sei o que me impele a viajar de forma tão tresloucada até ele. Na verdade sei. nunca suportei o fato de ter sido abandonado. Preciso ir lá, beijá-lo, sugar dele algumas verdades e deixá-lo sem dor na consciência.

Opa, lá vem o trem. Agarro minhas pesadas malas, o barulho ensurdecedor dos trilhos me assusta, mas continuo firme. E é ao embarcar a caminho do lar daquele que me abandonou que me dou conta: qual o motivo de levar tantas malas, se é apenas uma visita fortuita para acertar coisas do apssado? Porque estou levando tanta coisa? Isso eu também sei o porquê. No mais profundo esconderijo emocional da minha mente, onde impera as ordens do coração, eu estou implorando para que ele me abrace em silêncio novamente enquanto eu percebo que na velha persiana fechada, o reflexo dentro daquele quarto continua sendo somente o meu e o dele. Sem a necessidade de uma segunda partida. Estou indo para ficar.

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