A culpa

Aproximo-me, de leve. Quero ver como você está. Quero sentir de novo o cheiro do nosso colchão, quero ficar do lado de fora te abraçando contra a parede. Percorro seu corpo com os dedos, num misto de saudade e desejo. As lágrimas que escorrem, você nunca vê, nunca viu. Estou tão próximo de algo maior, mas nesses tempos terríveis e mensais da minha vida, não consigo me explicar sem cair em infinitos mal entendidos.

Nessa relação perpetuada no nosso ninho dos desesperos, é com comida e sexo que preenchemos um vazio enorme existencial. Não sou mais o balão colorido, leve e instigante que você puxava para baixo. Devo beirar o tédio. Mas o meu quarto ainda é quente por você. Meu amor tedioso é cheio de fogo, de desejo, de loucura. Sou o maior, no quesito gastar adjetivos ao tratar de ti.

Prendo o que sinto em uma garrafa com bolhas amarelas psicodélicas, trancadas a ferro, fogo e maconha. Dentro da garrafa úmida, as bolhas amarelas explodem, elas têm o seu rosto. Acariciam-me o rosto, em um gesto de carinho profundo que me comove. Não quero sair do interior da garrafa, mas há vida lá fora. E é quando você não está perto que meus medos se sobressaem.

Sem sua companhia parruda no que me acostumei a chamar de cotidiano, minhas certezas pré-definidas (como quem define a cor da TV nova) são rasgadas ao meio, liberando e espalhando as dúvidas como a plumas e penas de ganso. Caraminholas, contos da carochinha, pedidos de desculpa, perguntas que ficam sem respostas, mensagens soltas no espaço cibernético ecoam em minha mente doentia.

Egoísmo meu, peço pelo seu corpo nos meus braços, doem-me os ossos sem seus abraços.  Mergulho por aí, nas doideras da vida, perdendo velhas consciências de mim mesmo e assimilando um mar de oportunidades que não se concretizam. Meus olhos dizem tanto, não espero que você saiba lê-los, trata-se de um dialeto antigo, cravado nas pedras do mar morto que ousei chamar de coração.

Estou aqui, peito e corpo abertos e a palavra que resume o meu dia sem você é desespero. Viver em função de outro, por enquanto, é o motivo da minha teimosia em sorrir para loucos e malucos na rua. Necessidade física, saca? Pareço ríspido a alguns, mas talvez falte açúcar nesse café que insisto em tomar. Sei o que você quer de mim, mesmo que não consiga de pronto, corresponder. A pergunta não cala e ecoa enquanto os velhos vinis ainda tocam no aparelho digital: o que eu quero de você, meu velho rapaz? Ou especificando: o que eu ‘realmente’ quero de você?

Suas marcas estão ficando mais fortes, meu pulso acelerado. E eu já previ o final dessa história de paixão.

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