Redundancias sobre Nicole

Por: Darlon Silva

Sim, é mais um dia monótono e frio que se segue nesse comecinho de um outono que se anuncia longo e estagnado. Nem penso em olhar para meus jeans, eu já sei que estão sujos, não há vontade ou necessidade nenhuma em mim de lavá-los, até porque combinam (assim, sujos como estão) com os aspectos mais interessantes da minha vida. Fora essa minha obstinação em comparar panos com minha vida, tenho dentro do meu “Nicole way of life” um puritanismo nada consciente no interior da minha revolução pessoal. Sou contraditória e tão inconsistente quanto consistente, entende?
Através de alguns atos imaturos desejo mostrar que quero viver de sol e brisa, mas que seja num apartamento cinzento de alguma área poluída e industrial em uma (atenção na redundância que se segue) grande megalópole cheia de vícios e imoral. Eu quero aquele cansaço em meu corpo que vem a partir de um dia estressante de trabalho. Necessito aproveitar a embriaguez que um banho quente pode me causar para beber (como se bebe a um bom vinho) toda a delícia que a minha solidão me causa e todo esse torpor que toma conta da minha mente (eu adoro).
Não sei se sou moderna quando se trata de aparelhos e acessórios tão fúteis quanto minha necessidade de entendê-los, mas sei que há uma espécie de vanguarda no meu jeito de analisar e refletir o mundo em que vivo e as mudanças que nele pratico. Quando escrevo, outros personagens tomam conta de minhas páginas e os insiro em cenas e momentos que queria para mim, por isso o carinho que sinto por cada um desses insólitos habitantes da minha mente.
São todos criados como se pertencessem a uma mesma família, assim como os italianos fazem, talvez com certo drama dos gregos. Minhas criaturas se lançam no ar com todo o peso de suas mentes poderosas e de pensamentos tão inconstantes que se por um único momento se vissem livres das mentes deles, com certeza explodiriam o mundo. Por que mais que esse peso exista, meus belos e “libélulos” personagens flutuam no ar com a delicadeza própria dos brutos que sofrem em meio à leveza dos que amam.
Sinto em certos momentos, a bronca dos meus queridos insólitos para comigo: “Pô, porque me crias sempre sozinho? Não achas que mereço ter alguém? Se és assim tão distante, fria, de tudo e de todos, poderia ao menos não fazer o mesmo com suas criaturas!” Não deixam de ter razão, mas essa é a minha vingança e, sendo criaturas minhas logo estarão sempre sujeitos às minhas vontades, assim como às vezes tenho que me redimir um pouco e aceitar algum pedido insuportável de integração com o meio social em que vivo.
Hoje, entreguei-me a escrever algumas linhas sem cenas, sem solidão, sem dores e ambigüidade de sentidos como sempre faço. Sem personagens, agora a carapuça está bem vestida em mim. Hoje estou escrevendo (bem aqui) sobre o meu próprio ato de escrever. Este texto (que alguém lê) pretende ser uma introspecção alardeada, o interior que se mostra e o ritual que se cumpre e se explica. Mesmo assim, escrevendo para destruir a mim e aos meus mitos, você deve ter percebido que comecei o texto de uma forma peculiar própria (antes, outra redundância irresistível): descrevendo uma cena perfeita de outono, a qual eu adoraria que fosse verdade, mas não é.
Agora, enquanto escrevo, o sol está claro, radiante, feliz, iluminado. Pela janela, a luz invade todas as frestas, traz vida ao meu quarto e não estou em uma megalópole poluída visual e ambientalmente. Ao menos no exterior de meu mundo está assim. Porque por dentro, eu estou gelada, abandonada, rendida e desafortunadamente perdida para sempre.

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