Os amantes

Por: Darlon Silva

Tornar-se amante é o estado de graça do amor que destrói. Mas nenhum amante pretende libertar-se de tal jugo. Não parece ser um fardo pesado. O preço que se paga para que tantas sensações de paixão e prazer possam ser sentidas por duas pessoas que se ardem, não raro se torna alto demais
para a nossa compreensão racional.
Amantes devem sentir cada raio de sol em seus corpos ardentes. Precisam ter o corpo colado um ao outro, necessitam do olho no olho. Os lábios se colam em um frenesi constante, como se através da boca pudessem sugar as almas de forma furiosa e viril. Os olhos se tornam doces, mas em brasa, durante o amor carnal. As reações físicas provenientes de uma paixão não podem ser explicadas nem mesmo pelos mais sábios cientistas ocidentais, homens frívolos, sem grandes paixões, trancafiados em laboratórios e fórmulas nada excitantes.
Os amantes são a salvação do mundo, o contraponto do marasmo, o cerne da discórdia. São os dedos atrevidos que percorrem os corpos prometidos, ultrapassam as fronteiras proibidas, enlouquecem a razão e subvertem os valores. Entregar-se a uma paixão furiosa é quebrar com o pacto social pois é uma força tão extraordinária e revigorante que dois seres humanos apaixonados são incapazes de ferir somente a si próprios. Sempre há um elemento a mais, complicador, que sofre, embora nem sempre participe de partilha nos momentos de prazer físico.
Todo amante quer sangue. Correndo nas veias. Saindo pelos orifícios. Em pontudas seringas de sacrifício, pingando gota a gota cada resquício de dignidade que ainda os reste no peito combalido. E quer mais, quer vergonha, quer sofrimento, quer abuso. O amante quer uma entrega tão dócil e submissa do outro que esta, vista de fora, parece ser inescrupulosa, imoral, e na verdade o é.
Estes imorais querem luta, querem sofrer todo o processo de dor, necessitam de um objetivo final impossível de ser alcançado que os estimule a procurar no corpo do outro mais prazer, mais desejo, mais glória, mais pecado. É uma busca vã, como qualquer busca humana. Embora as sensações aproximem-se do divino, os amantes não devem se enganar. Se existe um inferno, a eles está reservado. Se a vida realmente é justa, certamente todos os indivíduos portadores do vírus paixão serão castigados.
Suas peles serão vagarosamente retiradas do corpo, pois é na pele onde registram as percepções do amor proibido.Imprime-se na pele o que foi vivido, como reserva para um futuro onde o outro é ausente. A pele guarda em si, como se a ferro fosse marcada, o toque do outro, o cheiro. E remete a lugares onde o desejo foi corrompido, os prazeres extasiados e as promessas ditas em murmúrios, cochichando sobre os ouvidos abobalhados e atentos de quem sempre está pronto
a escutar juras e a fazê-las inconsequentemente.
Ser amante é encher-se da certeza de ter se tornado inseguro. Isso faz sentido. A derrocada de uma grande paixão vem quando as certezas construídas carinhosamente dão lugar ao sentimento de posse mais poderoso, forte e imaturo que duas pessoas podem criar entre si. A paixão é benéfica e parruda quando revigora alguma alma acomodada pela desgraça, porém essa força que lhe é característica torna-se gigante e incompreensível quando destina-se a destruir, dissimular e criar factóides através do horripilante sentimento do ciúme.
Mas convenhamos, a derrocada de uma paixão é, frequentemente, a parte da história mais intensa, densa e interessante. É quando as máscaras caem, os olhares já nao se encontram, os corpos não se bastam mais. Quando o frio apaga as fogueiras apaixonadas feitas sob o luar cálido. Quando os dedos percorrem os corpos, não mais em busca do prazer, mas na paranóia dos vestígios. Quando a inexistência torna-se mais perigosa que a presença e a indiferença calcula seu método final.
Certamente o final de uma paixão é uma forma de vingança social. A sociedade, calculada, regrada, milimetricamente pensada a ser perfeita, vai de encontro a tantos sentimentos confusos, que parecem ser tão deliciosos! Sentindo-se incomodada, essa criatura mal educada que é a sociedade cria mecanismos, organismos e tantos outros ‘ismos’ para que a paixão seja controlada, refreada, colocada sobre o cabresto forte da razão. Mas não funciona.
Mesmo destruídos pelo combate, os amantes serão amantes até o fim trágico da coisa. Entregar-se-ão somente com os corpos cansados, o cálice já sem o vinho, os olhos fechados e uma respiração que não mais existe. O monstro mal educado finge sorrir, mas mesmo pisando nos corpos inertes no chão, sabe que isso nunca terminará. Em cada cabaré, em cada igreja, em todas as casas, nas ruas, no mercado, nas mais cultas escolas, na mais rígida disciplina, aquele vírus maldito paira sobre as pessoas, superior.
Estes seres amaldiçoados persistem também na criação de seus próprios esconderijos, ninhos de amor e pecado. Ora, não sabem eles que isso é cometer suicídio? Não pensam no depois? Nas lembranças que esses lugares horríveis, íntimos, onde o fogo dessas paixões transborda aos borbotões e essas lembranças aderem às suas peles, como um vestido costurado em suas almas para o resto de suas vidas? Quão babacas são ao imaginarem, veja só, que estes lugares inóspitos e ridículos são ‘o canto do mundo mais quente e bonito das nossas vidas, porque aqui somos só nós dois e eu tenho você sob os meus braços’. Ah, por favor!
Para azar de quem não ama e se acha racional demais para isso, é importante saber que, onde houver um peito que arfe, um rosto que core e alguns lábios dispostos a arderem por outros lábios, o vírus da paixão ainda estará por ali, vivo. E pronto para mudar a vida das pessoas, tornando-as trágicas, desesperadas, enlouquecidas, dramáticas. Enfim, fazendo de qualquer idiota com o coração pulsante de vida um herói na mais frustrante busca humana. A busca pelo amor. A paixão é um atalho que pode nos levar ao amor, porém é um atalho traiçoeiro e frágil, muito frágil. Os amantes procuram, precisam desse atalho. Pois no fundo, mais que alcançar o amor, os amantes estão interessados na dor da queda.

Por: Darlon Silva (em construção)

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  1. #1 por Diego em 01/04/2011 - 8:24 am

    Um filme pornô romantizado,
    Confesso que minha crise de identidade do século 17 tende a ser mais racionalista. Infelizmente ou felizmente?
    Ilusionista demais, que utiliza do escapismo pra viver a inverdades que a gente mesmo cria.
    um simples beijo pode ser uma flor se abrindo na sua boca despertando aroma, cheiro e/ou kill the lights me passe seus vermes bitch pq eu sou dirrrty.
    não sei até que ponto a gente cria o que vive, escolhe a versão mais bonita. e passamos acreditar nela se contada á alguém.
    seu post me intrigou.

    preciso de terapia hj.

  2. #2 por Marcos Lacerda em 23/08/2011 - 2:23 pm

    Algumas palavras do texto são capazes de se tornarem sensações enquanto leio, isso é mais do que uma prova que o texto é ótimo.

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