O batom

Por: Darlon Silva

Olhos espertos. Vá em frente, garota. De mãos dadas com o perigo, atravessa a avenida. Ela fuma um cigarro fedorento. Usa botas de cano alto, vestido curto demais entre o sexy e o vulgar. Cabelos curtos, leves no vento, acessório prateado prendendo a mecha ruiva no canto esquerdo da cabeça. Nariz de quem não tem medo de ninguém, queixo tão forte quanto seus músculos. Um sorriso sujo, vadio, sapeca-lhe o rosto avermelhado neste sol de Dezembro. Para o carro em um canto qualquer, como se fosse dona da cidade, no fundo ela é.
Ah, as pernas! Longas, matadoras, geométricas! Pernas que são donas do próprio ritmo têm vida própria, além do corpo da garota má.  Num movimento acinturado perfeito, contrastando com gordas atendentes de lanchonete que, infelizmente, passavam no mesmo momento. Mas o mundo parou por ela, mais uma vez.  Jogou o que restava do cigarro em algum canto da esquina, sorriu para afortunados mendigos e adentrou o bar deplorável.
Bebeu, fumou, dançou. Sorriu, flertou, comeu. Seu batom absurdamente vermelho contrastava com aquela parede porca e fétida do bar. Seu vestidinho de couro, curto, grife, sofria no contato porco com aquela parede colorida de náuseas, trapaças e sangue inocente.
Ela possui o homem com força. Empurra-o contra a parede, suga-lhe a vida num beijo ferino. Morde parte do seu pescoço, pobre homem, nunca vira antes tamanha fúria. Língua, lábios, saliva. Mãos arrastando-se luxuriosamente, ao som dos anjos, percorrendo os corpos, procurando os buracos, mantendo o contato. E ela chupa, morde, mete. No rebolar dos seus quadris, há um quê insinuando morte. Rabo quente. Nos seus olhos úmidos de prazer feminino íntimo e intenso está a pedra que a guia direto ao seu inferno miraculoso.
O homem é objeto. Levado por sensações desconhecidas, entrega-se ao jogo de loucura daquela mulher desconhecida com um corpo fenomenal. Sente o roçar dos mamilos macios, excita ao extremo no contato com a tes leve, a palma da mão a amassar aquele traseiro, os seios a acordarem suas bochechas como num beijo.
No olhar dela, vitalidade. Nos gemidos dele, rendição.
E agora, quando os gemidos do casal tomavam conta de toda a música insistente lá fora, causando piadinhas entre os bêbados podres do local, a mulher sorri com os dentes escancarados. Agacha-se, arranha-lhe as pernas com as unhas furiosamente, arrancando-lhe carnes.
O homem assusta-se, recua. Mas não há mais tempo. De uma só vez, em uma só mordida, Rita arranca-lhe os órgãos com a boca. E gargalha, sorri, feliz! Seu olhar brilha como nunca, está radiante! Rita mastiga-lhe o órgão, ninguém percebe. São gemidos de prazer, dizem eles lá fora.
O corpo do homem despenca, agonizando, mole. Rita levanta-se, preocupada com o desarrumar dos seus lisos, entra no vestido como uma lebre, recompõe-se em frente ao espelho e sorri. Satisfeita. Por hoje.
Lava-se rapidamente na pia, eterna morada de decompositores. Uma barata intrusa vem rodear-lhe os dedos. De um golpe, Rita lança-a de encontro ao corpo nu e capado ao chão. A barata se diverte sobre o corpo sisudo do homem pintado nas cores de quem não mais vê. passeia feliz pelo rosto inerte, feliz na busca por alimento. Anne lança-lhe o batom em cheio sobre o rosto, sufoca a pobre barata com aquela cor estonteante sem marca nem origem. Beija os lábios ainda quentes, sangrentos, realçando ainda mais a boca carnuda.
Olha o homem nu sobre o chão negro. Não sorri, não sente nada. Absolutamente vazia, Rita volta a se olhar no espelho, na busca por uma emoção qualquer, uma dose de sentimento maior que as de uísque que tomava durante todo dia. “Vadia!” pensa, virando e depositando a calcinha outrora tão sexy.agora manchada de sangue, suor e esperma sobre o homem.
Passa pelos fedidos do bar, lança-lhes um olhar de satisfação, todos sorriem de volta. Homem de sorte, quem lhe acompanhou essa noite, moça, eles dizem. Sim, muita sorte, ela deixa escapar-lhes um beijo entre os dedos, que em rápido relance os infelizes e desgraçados bêbados disputam a tapas. Babacas.
Enquanto a densa poça de sangue viril forma-se do banheiro espalhando-se sobre os sapatos malcheirosos dos bebuns, Rita saiu pela culatra novamente. Acende um cigarro “Mais um cigarro”, joga os cabelos, acerta os seios com a mão, como quem guarda uma criança ao colo.

Atravessa a avenida, entra no carro e acelera. Já insaciável, Rita não tem tempo a perder na cidade fria, cinzenta e suicida. “Eles vão me pagar, todos!” diz a mulher com o grande escorpião tatuado na vagina. “Todos!”

RIta acelera. Aaté quando, ninguém sabe. A cidade conspira a seu favor. “Vadia!”

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