Há uma contradição aqui

Por: Darlon Silva

Deixa eu ser seu Latin Lover.
Deixa eu ser seu Latin Lover.
Deixa eu ser a sua ironia de Woody Allen
Deixa eu ser sua juventude em Manoel de Oliveira
Deixa eu ser o retrato do seu Dorian Gray
Deixa eu ser o suspense no seu Alfred Hitchcock
Deixa eu ser a drag queen na sua sensibilidade almodovariana
Deixa eu ser a aventura, e você, meu James Cameron
Deixa eu ser a intensidade e você, minha Clarice Lispector
Deixa eu ser também o seu fluxo de consciência
Deixa eu ser o seu cinema marginal, sujo, bandido
Deixa eu ser a sua redenção, em Saramago
Deixa eu ser também sua cegueira crua
Deixa eu ser o seu melhor amigo homem
Deixa eu ser a sua Odete Roitman, a sua Nazaré, a sua Paola Bracho
Deixa eu ser a suprema felicidade do seu Arnaldo Jabor
Deixa eu ser o seu soco na cara, e você, meu Quentin Tarantino
Deixa eu ser o seu abraço, na sua terra estrangeira
Deixa eu ser sua morbidez, meu Augusto dos Anjos
Deixa eu ser o lado sexual selvagem do seu caráter puro
Deixa eu ser o seu teórico da comunicação, em nome de qualquer rosa
Deixa eu ser o seu mais forte charuto na coleção do Fidel Castro
Deixa eu ser a pista mais quente da sua balada
Deixa eu ser o seu pavão misterioso, o seu conto de cordel
Deixa eu ser espelho que te reflita pela manhã
Deixa eu ser o populismo do seu lulismo
Deixa eu ser o Renato Russo no seu faroeste caboclo
Deixa eu ser sua barata kafkaniana
Deixa eu ser o feijão preto na sua comida francesa
Deixa eu ser a Augusta e você, Avenida Paulista
Deixa eu ser sua coerência e coesão textuais
Deixa eu ser o sutiã de cone da sua Madonna
Deixa eu ser o seu vestido, e você, minha Geisy Arruda
Deixa eu ser o exagero, e você, meus anos 80
Deixa eu ser o brilho do seu estilo setentista
Deixa eu ser a batida do seu eletropop
Deixa eu ser a Joelma do seu Calypso
Deixa eu ser o pensamento do seu Lévi-Strauss
Deixa eu ser a brasilidade no seu Gilberto Freyre
Deixa eu ser a agulha que toca na sua vitrola
Deixa eu ser o seu pen drive com mais espaço
Deixa eu ser o melodrama da sua telenovela
Deixa eu ser alguém na sua noite
Deixa eu ser o seu ator pornô
Deixa eu ser sua brasilidade, sua latinidade
Deixa eu ser a banda larga da sua conexão
Deixa eu ser o tweet mais retweetado
Deixa eu ser a falta de expressão, e você, meu Ricardo Macchi
Deixa eu ser a sua depilação, e você, minha Cláudia Ohana
Deixa eu ser sua amnesia, minha Vanusa,
Deixa eu ser o moonwalk do seu Thriller
Deixa eu ser a Lucy no seu céu com diamantes
Deixa eu ser o judeu da sua câmara de gás
Deixa eu ser a sua masturbação no palco, e você, minha Patti Smith
Deixa eu ser a sua pasta de amendoim, meu Iggy Pop
Deixa eu ser a popart na sua Factory, meu Andy Warhol
Deixa eu ser a Elis Regina cantando para você, em Falso Brilhante
Deixa eu ser a ditadura militar da sua democracia
Deixa eu ser o debate da sua campanha eleitoral
Deixa eu ser a bagunça do seu travesti
Deixa eu ser o programa da sua noite
Deixa eu ser a Rita Cadillac do seu presídio
Deixa eu ser o seu paciente inglês
Deixa eu ser os pedaços do seu Picasso
Deixa eu ser a sua loucura, e você, meu Salvador Dali
Deixa eu ser a simplicidade do seu Carlos Drummond
Deixa eu ser o linguajar do seu Guimarães Rosa
Deixa eu ser a sua batata frita
Deixa eu ser o seu milk shake
Deixa eu ser o seu Romeu
Deixa eu ser o seu clichê mais absurdo
Deixa eu ser seu Sancho Pança
Deixa eu ser a saia justa do seu feminismo
Deixa eu ser seu salto alto
Deixa eu ser seu mp3
Deixa eu ser o detalhe no seu Roberto Carlos
Deixa eu ser um dos Beatles na sua coleção de vinis
Deixa eu ser a droga da sua Christiane F.
Deixa eu ser David Bowie, e você, meu camaleão
Deixa eu ser essa coisa louca
Deixa eu ser o gol de bicicleta do seu final de campeonato
Deixa eu ser o último trago do seu cigarro
Deixa eu ser o último gole da sua cachaça
Deixa eu ser o espermatozóide que te gerou
Deixa eu ser meu pênis na sua vagina molhada
Deixa eu ser seu Latin Lover
Deixa eu ser seu Latin Lover
Deixa
Deixa
Deixa pra lá.

Inspirado em “A cem por hora” de Renato Godá

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