Gabriel, Benjamim

Por: Darlon Silva

“Les extrêmes se touchent.”

Enquanto o sol lá fora ardia em um momento de chuva constante, Darlon dentro de casa escrevia recostado no velho sofá. Com o rosto molhado de suor no esforço de produzir algo interessante Darlon pensa, mas não está feliz. Ele sabe, embora não compreenda (todo mundo sabe) que escrever seja foda, mas o surto não acabou… Espera por um sinal milagroso vindo, talvez, de algum mundo habitado por gênios a inspiração que tanto quer para um texto intimista, pessoal e cheio de referências sobre um encontro casual e passageiro, embora marcante, beijos. Acompanhemos!

“Gabriel

Luar quente e cálido, contraste com o meu espírito gelado agora. Estou com cacos do meu coração de vidro nas mãos e corto furiosamente a casca que criei e que protege de mim mesmo. Não há motivos para isso, pois não há maneiras de se defender de si mesmo. Bobagem. Lanço minhas mãos para o ar, aguardando por um abraço. Meu olhar percorre a sala, as lágrimas tolas e bobas insistem em cair rolando pela minha face. Insistentemente algumas cenas vêm à minha cabeça, monto o roteiro mas os atores partiram e a câmera da minha vida emocional nunca foi ligada. Não há outro modo de dizer que está doendo, queridos.
Lanço o meu corpo sobre o chão, rolando entre as lágrimas que caíram. Já senti prazeres maiores em chãos mais frios. Eu sinto que no fundo no fundo, talvez seja eu mesmo quem mais goste de sentir minhas dores. Não seria feliz sem elas. Não há felicidade sem dor, pois para o paraíso o caminho é feito de pedras.
Cigarro. Outro. Outro. Café. TV. Vida social me constrange. Estou desesperado porque percebi que vou ter que me agüentar até o fim da minha vida. Há tanta coisa a ser dita a você! Mas algumas eu posso resumir, afinal, nem todo o papel do mundo seria o suficiente, não, não seria! Beijos não resumiriam a necessidade, palavras não traduziriam a dor, embora eu saiba que tudo vai passar!
Ah, me lembro do seu corpo e do quanto eu gostaria de tê-lo invadido! Com força, como se arrancasse sua alma. Gostaria de ter comido um pedaço de você e levá-lo dentro do meu intestino o resto da minha vida! Seus lábios adocicados (embora um pouco secos) eu gostaria que me acompanhassem por um tempo, até que eu me enjoasse.
Gostaria de ter algumas mechas do seu cabelo macio em minhas mãos durante o dia. Gostaria de pressentir o seu olhar instigante e absurdamente intimidador me acompanhando durante o dia, sorrateiramente. Gostaria do contato com suas mãos de gente fina, do roçar da barba espessa, dos pêlos do seu corpo crescido, do contato mais intimo e revelador. Gostaria de te invadir à força, com força num crescente ímpeto de prazer, ódio, tesão e admiração.
Que Deus me dê força pois penso durante o dia em te dominar o corpo, alma e espírito, te deixar nu moralmente e revestir-me com sua pele. Ter você sexualmente sobre os meus pés, enxergar nos seus olhos o pecado, a dor, o êxtase. Sei que você não me entende, poucos conseguem, Não tente, sua normalidade é reconfortante à você. Não mude!
Não tente entender os loucos, mesmo que a loucura tenha um pouco do que você é. Poucos param para pensar em algo durante a vida e os que param quase sempre o fazem da maneira errada, portanto não pense em nada. Não banque o crescidinho, você não é forte o bastante, not enough. O que me conforta é saber que meus sentimentos de inadequação são tão fortes quanto a ignorância dos que me cercam. Eu chego lá, um dia chego. Um dia minhas palavras serão vinho e cálice, um dia meus pensamentos serão pão e circo. Um dia meu melodrama será o retrato de uma realidade cotidiana e fantástica, como nunca antes alguém pudesse ter vivido.
Felicitações a você! Marcou-me profundamente por alguns dias! Isso, suma de perto de mim. A vida segue o seu fluxo eterno, incompreensível. Mas para mim, não há soluções, estou irremediavelmente jogado na sarjeta das emoções tranqüilas do amor. Se a paixão me queima com furor durante algum tempo, essa mesma paixão me cobra o preço mais caro, tornando-me pesadamente indiferente.Chega. Estas linhas têm muito de mim. Não me mostro, não preciso, não quero, não morrerei só. Estou paranóico e cansado. Penso que se alguém entendesse o meu olhar, Gabriel! Quantas coisas disse à você através deles! Ninguém percebe, nem mesmo os mais próximos a mim, que meu olhar é a Bíblia.
Estou a todo  momento contando histórias interessantíssimas com eles, histórias de outros tempos, histórias de outras pessoas enquanto minha boca fala sem parar de mim. As pessoas se cansam de me ouvir, mas são burras e não ouvem as histórias dos meus olhares.
Quantas vezes não contei à você sua própria história vista de um ângulo particular meu, mas você preferiu não ouvir! Na verdade, estávamos ocupados nos testando, devido à nossa condição.
Paro por aqui. Uma ressaca excruciante me força a dormir mais. Fique tranqüilo, se essas linhas são um desabafo isso funciona como um sinal de que não sou do tipo que incomodo ninguém. Orgulhoso demais e nem os cacos do meu coração de vidro conseguem ferir essa condição. Sempre irei me lançar em corpos alheios, sempre serei marcado profundamente por eles durante alguns dias e depois, nada mais. Sempre serei dominado pela indiferença que me é característica. Sempre tentarei deixar alguma marca em alguém, mas se não me marco interiormente como poderia marcar algo no exterior o suficiente para satisfazer os egos (meus e dos outros)?
Quero terminar abruptamente, portanto, boa sorte!”

Darlon recosta-se no sofá, pensativo e exausto. Percorre sexualmente as mãos pelo corpo e sorri. Sorri porque, quando tudo dói se sente vivo. Sorri lembrando-se de cenas vividas e contadas. Deixa o papel correr pelo velho sofá. Deixa algumas lágrimas molharem o rosto. Sabe que não há remédio para si mesmo. Aproxima-se da janela e pensa nos cacos da comparação com seu coração. Darlon está enganado. Seu coração é quente, viscoso e mole, mas ele ainda não sabe. E a cada ferida, a cada casca que lhe adiciona o caminho do tempo, o jovem está ainda mais próximo de uma dor maior: um amor de verdade, desses que poetas inconseqüentes e depressivos encontram apenas uma vez, para sempre.
Boa sorte a você que precisará dela, Darlon! Apenas tente sair vivo, quando chegar o momento. E não se esqueça de que felicidade é ilusão do proletariado. Beijos

Por: Darlon Silva (em um momento de quase loucura).

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