Férias a sós

Por: Darlon Silva

O apartamento está sujo: jeans espalhados pelo solo, pontas e mais pontas de cigarros espalhadas pelas varias camadas de poeira no chão e em mais três cinzeiros (os que eu consigo enxergar), alguns cigarros ainda estão pela metade, fumo mais tarde. A cama virou um amontoado de lençóis imundos, travesseiro jogado, tênis sem cadarço e um sapato social, meias também imundas, borra de café, xícara de café, cafeteira e um inexplicável pacote de sabão em pó semi-aberto.
Não preciso continuar esta nauseante descrição. Qualquer um percebe de imediato que preciso urgentemente de uma empregada ou subentende que estou deprimido demais para importar-me com a limpeza do ambiente que habito. Há quase um mês atrás bebi um pouco, o que quer dizer que pensei na vida (sempre faço isso quando bebo). E consequentemente, se pensei na vida, fiquei deprimido. O problema é que toda vez que fico deprimido, fico com uma imensa vontade de beber, e isso causa todo um ciclo vicioso, em minha vida, de porres, pensamentos negativos, depressão e bebidas, etc. Não, também não pense que sou um adolescente longe dos pais ou um rebelde sem causa.
Hoje, 09 de Abril, faltam apenas dois dias para que eu recomece a trabalhar. Férias merecidas. Quando sai de férias, prometi a mim mesmo que iria voltar ao trabalho bronzeado, descansado, com a mente, pele e espíritos limpos e saudáveis. Que passaria o meu mês de férias em alguma praia afrodisíaca e que teria historias mil para contar. Não deu certo. O corpo pode até ser que esteja limpo, mas a mente… Bastou uma primeira semana de solidão, trancado entre quatro ou cinco paredes, para que eu surtasse: mal liguei a TV e já estava bebendo um copinho de vinho com a desculpa de que era para “relaxar”.
É, relaxei demais. Vinho, cerveja, alguns drinques destilados… Essa progressão perigosa piorou a cada dia que passava. O telefone tocou algumas vezes, nem atendi. Podia ser do trabalho, ou pior, podia ser a minha mãe. Lá pelo décimo quinto dia não tocou mais. O que quer que fosse não era tão urgente, afinal, desistiram. Acho que foi ontem à noite, eu ouvi os vizinhos fazendo sexo. Isso me animou um pouco. Meio que acordou em mim alguns instintos adormecidos e dissipou um pouco o meu marasmo interior. Pena ter acabado tudo tão rápido, eu estava adorando compartilhar aquele momento com eles, mesmo que não soubessem. Afinal, como vi em um filme há tempos atrás, voyeurismo também e participação. Mesmo que seja um voyeurismo de ouvidos apenas.
Um dia desses resolvi comer no meio da madrugada, já que passei a trocar o dia pela madrugada e abrir os olhos neste horário. Resolvi alimentar-me um pouco, satisfazer esses instintos mais básicos, já que aqueles instintos que os vizinhos satisfaziam não estavam ao meu alcance no momento. Nada na cozinha, nada na sala, nada na mesa, nada embaixo da cama. Alimento nenhum em nenhum lugar. Meu corpo e espírito com fome depois do tanto que durmi, primeiro li uma pagina do livro que estava jogado entre as panelas no fogão (isso mesmo). Espírito alimentado (mais ou menos, era um livro de esquerda, propaganda marxista perigosa e que podia ter-me causado indigestão), o que salvou meu corpo foi o agora não mais maldito telefone. E da-me pizza, comida chinesa, lanches, hambúrgueres, refrigerantes por um bom tempo. Divertia-me ver a cara espantada dos entregadores ao ver a mim e ao meu habitat natural naquele estado. Acostumados que estavam ao limpinho servidor publico que havia sido num passado nem tão longínquo. “O senhor esta bem?” – ouvia frequentemente, “Nunca estive melhor!” – respondia recebendo o Oscar por interpretação mais bizarra das minhas férias.
Acho que foi no quarto dia que resolvi ouvir musica. Detalhe: quase cinco da manha, imagina o que diria (através de gritos histéricos) aquela senhora judia que mora no andar de cima! Ainda bem que vivo nos anos 2000, um mp3 que andava esquecido dentro de uma das minhas meias em cima da cama serviu-me por algum tempo ate que acabasse a bateria, eu não estava em condições de procurar o carregador, se e que eu tinha um.
Os dias foram passando e o único compromisso que mantive foi com a minha higiene intima. Barbeava-me exaustivamente produzindo muita espuma, tomava banhos de horas e horas e nem ligava para o que fosse acontecer ao planeta por conta dos banhos intermináveis. Sempre fazia isso bêbado, talvez por achar que sóbrio eu não conseguisse pensar nessas coisas, talvez para ter um motivo para beber todo dia. Experimentei a onda metrossexual e comprei pela internet uns cremes de depilação masculina fácil e rápida. Divertia-me ao espelho vendo a minha transformação de homem macaco a garotinho imberbe. Escovava os dentes olhando-me no espelho e ultrapassei, muitas vezes, uma hora neste oficio. Penteava inúmeras vezes o meu cabelo, descabelando-me em seguida e recomeçando a tarefa. Agora, no final de tudo isso, de todos esses dias comigo mesmo, estou aprendendo que tenho um belo corpo e que ressaca todo dia não é uma coisa legal. Ser boêmio a vida toda deve doer (principalmente a cabeça).
No mais, arrasto-me o dia todo da cama para o banheiro e vive-versa com o controle da TV ou o mouse do notebook colado na mão. Evito saber noticias do que acontece lá fora, assisto apenas alguns programas de variedades. Converso somente com mulheres desconhecidas pela internet, marquei ate de conhecê-las (inclusive estrangeiras) e nunca fui, sem cobranças… Estou vivendo como se estivesse em outra dimensão, como se a volta à vida normal não estivesse próxima. Curto cada dia no que ele oferece de pior e de melhor. Sozinho. O apartamento continua sujo. No primeiro dia das férias dispensei a mocinha que limpa aqui e que provavelmente vai ficar arrepiada quando entrar depois de amanha. Acordo no começo da madrugada e desmaio com o raiar do sol. Vida de vampiro. Vida de vampiro bêbado. Compro comida pelo telefone e, como o dinheiro acabou, agora distribuo cheques. Eles (os entregadores) já me conhecem e até conseguem sorrir ao ver a confusão no pedacinho do apartamento que eles veem da porta entreaberta. Juntamente com cada pizza, eles trazem um ou dois maços de cigarros (depende do dia). Sim, eu sei que quando voltar para o trabalho terei que fazer um check-up.
Engraçado foi o dia que resolvi chorar. Acordei mais cedo, acho que eram nove da noite. Lembrei-me de algo bem legal da minha infância e despenquei. Chorei. Chorei. Chorei de saudades do que não volta mesmo. Chorava, soluçava, arrastava-me pelo chão, jurando que estava em um melodrama mexicano. Sufocava-me em lagrimas pelos mortos, pelos vivos, pelos políticos (estes precisam), pelos vizinhos e o pouco tempo de sexo que tinham, pela minha mãe que ligava e eu não atendia, pelo pobre escritor de esquerda que tentava não ser pragmático no livro de esquerda jogado em cima do meu fogão (lembra?), enfim por tudo, por tudo… Chorei durante muito tempo, tempo que não pode ser medido em minutos ou segundos. Depois, achei-me tão canalha por chorar estando tão vivo que resolvi gargalhar de tudo assim que acordasse, por enquanto eu só chorava. Rir nervosamente foi o que fiz no outro dia. Passei o dia todo a andar pela casa gargalhando. Para ajudar-me nesta tarefa procurei algumas fotos minhas antigas e então tive material para excitar as minhas mais sonoras gargalhadas de toda uma vida. Achava graça do formato do apartamento. Achava graça do meu rosto de traços banais. Achava graça quando me lembrava do meu salário também banal. Achava graça ao lembrar-me de que não tinha ninguém apaixonado por mim desde a década de 80. Foi o momento da percepção de que, na verdade, eu debochava de alguns dos meus dramas, de coisas doloridas para mim. Agindo com medo pela primeira vez desde o primeiro dia de férias parei de pensar nesses assuntos.
Como não faço nada o tempo todo, penso bastante. Penso na vida, penso na falta dela. Reflito sobre viver só, reflito sobre viver acompanhado. Reflexões das mais díspares passam pela minha mente: o que farei quando minhas férias acabarem, se realmente devo voltar para o meu emprego medíocre até sobre como eu poderia resolver a fome na África ou naquele bairro da periferia da minha cidade e com isso aumentar minhas chances de promoção no emprego.
A menos de 48 horas do fim da minha hibernação sinto-me em paz. Com preguiça, enojado de fast food. Decorei os horários de programas da madrugada que nunca mais poderei assistir. Descobri que se tivesse um relacionamento, não teria resistido a esses dias que passei sozinho e sem cobranças. Aprendi a gostar de viver no momento em que a maioria dorme, é como receber da cidade uma energia diferente, uma calma, sei lá… Quero aproveitar minha ultima noite em paz. Vou levantar-me daqui a cinco minutos e lavar somente o meu uniforme de trabalho. No resto, que se vire Maria (ou Joana?). Revirando os armários, achei um pouquinho de arroz. Ainda bem, não agüento mais nem ver pizzas e companhias na minha frente.
De volta a vida real, estarei seguro. Daqui a pouco terei parado de fumar e também de depilar-me. Não mais irei me preocupar com a aparência e serei novamente um servidor publico detonado pelo tempo. Engraçado essa contradição de eu ter cuidado tão bem da minha aparência (entre um refrigerante e outro) enquanto estava comigo mesmo, sem ninguém. Agora, de volta ao convívio com outras pessoas, menosprezarei o meu corpo. Neste tempo sozinho aprendi que… Bem, não aprendi nada. Talvez a única coisa diferente que tenha aprendido seja como depilar-me sem dor em cinco passos. No fim, tudo continua igual em mim… Sempre.
Todos nós seres humanos, sozinhos ou com alguém, a vida toda, somos mesmo um bando de idiotas.

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  1. #1 por Leo em 08/08/2012 - 5:57 pm

    Tão estranho e, ao mesmo tempo, tão familiar.

  2. #2 por Ieda Jimenez em 14/08/2012 - 6:05 pm

    Gostei muito! Parabéns!

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