E por onde andará a Razão?

Por: Darlon Silva

O corpo inerte no chão do asfalto. Torpor.
Decompõe-se a matéria no contato último com a terra, que a acolhe. O silêncio
constrangedor expõe a impotência de todos que contemplam o espetáculo derradeiro e sem graça. Não há mais vida. Não há mais saída. E por onde andará a Razão?
Ninguém escolhe morrer. O medo da finitude levou o Homem aos extremos e contradições  que assassinam cada vez mais o sonho de uma possível felicidade. Todos somos culpados por nossas indiferenças calculadas, pelo simples fato de nada fazer. Ladeira abaixo da moralidade, a cada corpo no chão, em cada rosto de luto. E por onde andará a Razão?
Tiros vazam pela culatra, invadem as janelas, interrompem vidas, destroem os sonhos, derramam lágrimas e são, cada vez mais, inexplicáveis. O Homem inventou a pólvora, a Razão ensinou-o a puxar o gatilho. O remorso  é a ressaca racional inventada pelo Homem para desculpas injustificáveis e insustentáveis. É a fuga covarde de não sentir a dor alheia. A mãe chora o desalento de perder parte de si. Drama. O progresso continua, acelerado, as tecnologias passam freneticamente por nós na corrida pela inteligência e já nos ultrapassaram. Ultrapassados por nossas próprias criações, mas não há megabyte que faça download de vida real no corpo estatelado ali no chão frio, nessa noite sinistra. Os governantes são apáticos. E por onde andará a Razão?
A Razão fugiu, tem medo de suas crias. A Razão escondeu-se no aconchego dos livros, tão inúteis agora. Está enfurnada na moral hipócrita, está jantando na casa do desespero, a razão não está nem aí para nada. É essa Razão que defendemos. É este o modelo de sociedade que na alcova das barbaridades que aceitamos nos torna felizes a cada dia por simplesmente estarmos vivos. O corpo apodrece, mas é a Razão quem está com os dias contados. O corpo apodrece, como o retrato de Dorian Gray, mas é a racionalidade, tão senhora de si, quem será cobrada de tudo isso. O medo que toma conta de quem enxerga a cena é comum: aquele corpo poderia ser o meu, poderia ser o seu, poderia ser o nosso. E por onde andará a Razão?
Achem-na. Estrangulhem-na. Coloquem-na imediatamente na guilhotina das possibilidades reais de evolução. Fucem em tudo, vasculhem a ética, promovam uma devassa na hipocrisia. Vamos voltar à bestialidade, ao menos aí não precisaremos nunca mais nos explicar sobre nada. Porque o corpo no chão é culpa minha, é culpa sua. O choro da mãe tem um pouco do choro de cada um,
é explícita a dor de um desapego desnecessário, não agora, não daquele jeito. E por onde andará a Razão?
Esqueçamos a frivolidade das ideias, abandonemos o sentimento de coesão social, tudo isso é hipocrisia. Cuspamos na burguesia, escarremos no proletariado. Neste momento, não há teoria que reaviva a esperança na alma de quem perde, não há mão que levante o caído. A ineficiência de qualquer mecanismo de defesa social é filha direta da impunidade, dos rostos virados, culpa do nosso esnobismo, de um egoísmo que não cabe mais em qualquer espaço atual: dos barracos periféricos aos mais avantajados cartões de crédito. As leis, os controles, a investigação, a
supervisão, os especialistas, os que divulgam expectativas melhores andam calados. E por onde andará a Razão?
O corpo clama por justiça, achem a razão, acabem com ela. Vamos voltar a ser animais, como nas eras primitivas. Voltemos aos bandos, à procura pela comida e à matança generalizada na busca pela sobrevivência. Finjamos desinteresse. E quando a Senhora Razão sair do seu esconderijo, nos der uma brecha, acertemo-la com o dardo da dignidade. E que nunca mais tenhamos corpos no chão e choro
nos rostos por tão pouco, de forma tão corrupta. Por que o tal corpo lá, parado, explicita a banalidade da vida em dias corridos. Procure espreitar em você mesmo. Se houver uma resposta me avise. E por onde andará a Razão?

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