A rendição do poeta

Por: Darlon Silva

Cansado de temas românticos o poeta procura outro espaço, outro contexto. Imagina que se estiver em outro lugar, que não seja embaixo do luar, deixará um pouco o romance e a poesia para curtir uma vida menos atribulada e dolorosa. Sim, o poeta cansou-se de sofrer por profissão. Conheceu tantas mulheres, belíssimas moçoilas na verdade, mas aquele mundo de promessas e lágrimas só trouxe a ele dor e sofrimento. Agora, quer viver sem a angústia.
O poeta quer perder o ar triste que possui há séculos, quer se modernizar. Aparou a barba, cortou os longos cabelos, hidratou-os. Passou dois dias entre salões de beleza e um SPA e, acreditem se quiser, conseguiu sorrir em frente ao espelho! Fez limpeza de pele, comprou roupas de marca, perfumes caríssimos e aprendeu a depilar-se em três passos com uma cera caseira. Afastou-se das “más influências”, não tem mais amigos, quer recomeçar. Demitiu-se da repartição pública, trabalha no setor privado (mais arriscado), não respira sem o celular, todo dia elogia os ternos caros do chefe, tem um caso com a secretária e agora só pensa em ser promovido e alcançar as metas da empresa.
Comprou um carro novo, reformou o apartamento. Festas e excessos, não mais. Apaziguou-se com a vizinha, estreitou laços de amizade com a comunidade e agora (meu Deus!) assiste ao jornal das oito entendendo aquela reportagem sobre juros. Causando a inveja dos modernistas do prédio da frente, agora o poeta rabiscou toda a parede de cima a baixo com giz amarelo (ainda considera-se nacionalista), disse que está procurando uma nova forma de arte, de expressão e acha tudo muito lindo, muito natural.
Assinou a TV a cabo, ouve música eletrônica, doou todos os livros (inclusive os que escrevera) para alguma biblioteca pública. Tem notebook, baixa músicas ilegalmente, faz parte de rede de relacionamentos on-line, bebe cerveja, parou de fumar porque dizem que faz mal e por pedido do seu personal trainner agora dorme religiosamente oito horas por noite. A última barreira vencida foi “ficar” com alguém. Simples beijos, nada mais. Uma noite e… Acabou!
O poeta ficou admirado: tudo ocorreu sem poemas, flores ou sonetos, aliás, nem houve a necessidade de derramar lágrimas, serenatas, jóias, cartinhas, flertes, insinuações… Isso sim, sabor de modernidade, a moça nua ali ao seu lado, sem cobranças. Era bom praticar esse novo método, toda noite, em um barzinho diferente, uma mulher diferente, beijos e corpos diferentes. Sem deixar de dividir a conta no fim da noite, perfeito! Os frios lençóis dos motéis encarregavam-se da discrição do acontecimento. E no dia seguinte: nada de mágoas, apenas beijos de despedidas, uma casual troca de e-mails e até mais.
Um dia, rico e já acostumado ao ousado0 e admirável mundo novo, resolveu, sabe-se lá o porquê, comprar um livro de poesia. Nostalgia, talvez. Não achou nenhum na banca da esquina, pequena demais. Engraçado, também não havia nenhum na seção de livros do hipermercado. As pessoas realmente não perdiam mais tempo com essas coisas. Internet, grandes livrarias, sites especializados, sebos, grandes bibliotecas… Não achou, em lugar algum, sequer um livreto, panfleto ou livrinho de bolso que contivesse poesias, nem os clássicos do Drummond, que horror!
Foi para casa, entre lágrimas e soluços, tomado como que por um vício antigo, alguma recaída. O corpo tremia. Sobre a mesa da sala, um papel em branco, convidativo. Tremendo, o ex-poeta, agora rico e moderno, bem-resolvido em tudo, se aproxima da mesa. Olha por um longo tempo o papel em branco. Cheira-o. Algumas lágrimas escorrem. Um pedido de perdão. O papel aceita.
Já sentado na cadeira nota que, não sabe como, uma caneta está em suas mãos. Pensa um pouco e quando dá por si, está a escrever loucamente e feliz. Escreve, rabisca, fuma, bebe um vinho, relembra-se de alguém, um grande amor, um amor impossível, atravessa a madrugada e sorri. O poeta está, agora, verdadeiramente de volta à sua missão.
Do papel, não mais branco como antes, lê entre rabiscos a sentença da rendição: os poemas jamais lidos e jamais feitos em todo o mundo, de uma emoção e inspiração contagiantes. De tamanha felicidade e angústia, de volta ao corpo do poeta, a mente foi quem não agüentou. De um pulo, como quem abre as asas enferrujadas pelo tempo, o poeta se joga da janela do luxuoso vigésimo – sexto andar que habitava. Livre, feliz, desavergonhadamente romântico e apaixonado.

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