Caminho renovado
Publicado por Darlon Silva em Textos Literários em 27/04/2012

Tome, enfim, a direção da sua vida
Pegue firme nesse volante que é conjunto
Que pra mim, já teve cheiro de mato
Que pra você, traz vento e cinzas urbanas.
Avance uma casa, a do amor, sem rancor,
Saia de casa, viva o sol, veja a luz
Venha comigo, nessa estrada incerta
Não esqueça o passado, porém perdoe.
Não se iluda, não é fácil brincar
Peça ajuda, eu também posso ajudar.
Suas cores sombrias,
Permita-te divertir-se com meu amarelo manga,
Deixe o meu Brasil divertir sua Islândia.
Escolha o caminho, experimente a fotossíntese.
Perceba a brisa, entregue-se, esqueça o velocímetro.
Porque amar é morrer toda noite,
Com a certeza de renascer pela manhã.
A falta física (Eu sou a personificação do exagero)
Publicado por Darlon Silva em Textos Literários em 07/02/2012
Frustrado, dolorido, cortado ao meio, coração em frangalhos, mesmo assim ninguém ocupa o lugar dele no momento. Ele é um canalha mas é difícil imaginar a vida sem aquele corpo, aquela fonte repleta de sensações que entupiram-me de prazer em alguns momentos. A voz, a respiração, o olhar vagabundo, o toque das mãos… E sempre fica a pior das faltas, aquela que não tem caráter: a falta física.
Essa falta física não conhece a moral vigente, não respeita as regras, passa longe da dignidade. E ela sempre vem, e sinto falta dos abraços, ah, os abraços! Necessito dos beijos, do colo, dos olhares cúmplices, dos sorrisinhos de amantes. De todas aquelas sensações que o cérebro produz e sempre acho que são provenientes do outro. Insisto em criar essa ilusão de que é ele o responsável por tanta serotonina invadindo meu sistema nervoso, mas não é.
Costume e rotina: a falta física é a mais cruel, irracional, instintiva e insistentemente carente. O apego não é feito somente de uma idealização da pessoa amada, da supervalorização de suas qualidades ou coisa do tipo. O apego é a comprovação rígida e científica de que sou o extremo em tudo que faço, a verdadeira personificação do exagero.
Então radicalizo que jamais sentirei novamente aquele prazer. Que era único, inigualável. Corrói-me pensamentos de que estará ele servindo da ambrosia quente daquele corpo a outra pessoa, me pego chorando, esmurrando o pobre travesseiro, vontade de lhe dizer mil verdades. E como um vulcão maluco, boto para fora minhas larvas quentes, destruo tudo, arrasto as coisas. Eu sou assim, grito, rasgo, vou no e ao fundo de tudo. Com as provas de sua desonestidade em mãos, sinto-me inútil, um sorriso e não sei o que dizer. Mas eu falo, falo como se não houvesse amanhã!
E é exatamente nisso que me diferencio dele: a coragem em dizer tudo! No fundo eu sei o quão canalha ele é, mas quero cortar, ver sangrar, botar para doer! E jogar tudo na cara, em uma vingança às avessas, que dói mais em mim do que nele e ostentar que sei tudo sobre ele! Quando na verdade, devo saber dele o que não sei de mim, deveria aprender a respeitar meus limites, impôr meu amor próprio ao excruciante espetáculo causado pela dor da falta física.
Já me sinto nu diante das conversas, ejaculo o pus latejante da minha dor na cara das pessoas, dos amigos, cuspo nos animais que passam, prevejo mortes violentas, acordo com pesadelos horríveis e acabo por pesar a vida dos que se sentem leves naquele momento. E na vida de imposições que levo, atravesso a alegria dos outros, dou marretadas em seus ombros e marco à ferro e fogo o rosto de quem passe à minha frente com meu semblante horrendo.
Sei que o amanhecer não tarda, mas meu relógio está parado em alguém. A falta física expulsa-me de casa, não quero confrontar os móveis, o colchão, o ninho do amor. Mas amanhece sem pressa, enquanto as baratas trituram vagarosamente a madeira do sofá. O café, esfriou. A comida, estragou. Ele, não se importa. Restou-me apenas minha dor. E a certeza cambaleante, sonâmbula e embriagada de que o pôr do sol me trará uma nova paixão: e mais um recomeço na dor que crio cotidianamente.
A cabra e o rio
Publicado por Darlon Silva em Textos Literários em 30/01/2012
“…e nunca mais foram os mesmos…”
A cabra montanhesa é um animal passivo, pacífico e solitário. Depois de subir lentamente a montanha, apreciar toda a desgraça humana de sua posição favorecida, o bicho se instala no cume da montanha, a cabra fixa à terra de essência rígida. Através do contato com o solo suas energias são alimentadas o que torna o espírito da cabra sólido, mas também rústico. E assim vai sua vida, a ruminar o primeiro mato da terra, o mais rasteiro e involuntariamente criar o adubo inicial do solo fértil. E também assim são seus dias, cheios de métodos (para espantar o tédio interior), no cultivo do orgulho de serem tão calmos e cheios de paz.
Diz a lenda que, de tempos em tempos, a cabra sente a necessidade de variar sua rotina metódica de animal solitário. E começa a sua caminhada, lenta e paciente em busca de algo que a movimente, que a excite, ao menos por um tempo. Ou um pouco de companhia que não sejam suas irmãs cabras. Segundos, horas, meses, anos… O tempo não é importante, mas sim, o processo da caminhada e a mastigação que se faz de todo o caminho. De tão lentas, o próprio tempo da Terra se altera, de forma a envolver em casulo a (ingênua?) bichinha na busca pela (felicidade?) diversão logo abaixo.
Como quem sorve a vida a longos prazos, o animal cria estruturas de defesa a cada árvore, bicho ou o que quer que viva de diferente de si pelo caminho. Tais estruturas despedaçam-se durante as agruras do caminho, machucando e abrindo a pele da cabra a cada passo. Mesmo ferida, não muda seu ritmo. E continua a jogar pesadamente sua língua de encontro ao solo. Sua forma de perceber o mundo é esse, através do sabor áspero da língua, que arrasta a terra contra si mesma, sentindo o o solo em seu sabor mais primitivo, o da não existência do tempo e a sua contradição sendo prova incontestável do que é físico.
Cansada do caminho, a cabra arrasta os passos, mas não desiste de seu traçado, pois ouve um ruido cada vez mais audível por perto. Excitadíssima por já se achar próxima a seu objetivo. a cabra sorri feliz, um sorriso que lhe enche a alma, novidades! Seu passo lento agora tem uma certa graça, um gingado de prazer. A visão, tão nítida para as coisas de dentro, pela primeira vez se abre a grandiosidade do que lhe está à frente: o rio.
Com as lágrimas a lhe escorrerem o rosto, em um misto sincero de alegria, êxtase e dever cumprido, eis o rio! Tão lindo, olha que águas escuras, caudalosas! O mundaréu de água desce desenfreado o trajeto da vida, se esbarrando, arrancando, levando junto tudo que encontra. A rapidez e complexidade das emoções do rio, que chorava copiosamente a seus pés os prantos de um amor antigo, de primeiro assustou a cabra. Tonta, vê seu mundo girar, mas logo é preenchida por uma sensação inigualável, extinta no cume da montanha: o coração da cabra bate forte e rápido.
Depois então, tenta entender o que está vendo. Quem é esse? Louco, surtado, lambendo as encostas dos sentimentos, arranhando a língua, chorando os efeitos de suas ações, carregando o solo sagrado, levando a vida em seu leito, na velocidade das águas. Ao avistar a cabra, lá foi o caudaloso lépido, quero tragá-la, quero tragá-la. Quero receber um beijo seu, cabra! Beije-me! A cabra, ciente do poder da imagem de sua segurança, no intuito de acalmar tão raivoso rapaz, abaixa-se lentamente e toca com o lábio, aquele do solo e do início das coisas, o rio perplexo.
O encontro da cabra com o rio muda tragicamente o destino dos dois. O rio nunca mais será o mesmo, a cabra não irá esquecer nunca aquele momento. E é exatamente por aquele momento, que pode durar dias, anos ou milênios, que os dois estão destinados a sempre se encontrarem: a necessidade é mútua e a engrenagem animal pode seguir seu caminho. O rapaz, excitadíssimo, acaba por elevar ainda mais suas águas, criando um turbilhão espetacular de movimentos ao pé da montanha. As águas lavam a cabra suja da viagem, e acariciam, protegem e curam as feridas do bicho. Terra e água se misturam, o barro (testemunha ocular do encontro) torna-se prova irrefutável daquela união do masculino e do feminino. E é dessa união que florescerá o elemento criador do Homem, a dualidade entre seus instintos e a emoção inexplicável que nasce do desejo.
Mas tal cuidado tem seu preço. Após aliviada a dor da caminhada e absorvido o sabor das águas do rio, a cabra retira sua língua do interior das águas e prepara seu caminho de volta. O rio estupefato. Onde está a causadora de tamanho prazer? Porque lhe retirou de forma tão brusca a fonte do prazer que, em sua contagem de tempo, já lhe era cotidiano? As doses fortes e lentas de prazer não te pertencem atemporalmente, pois o atemporal não existe, diz a cabra. Com um sorriso nos lábios, a cabra retorna e prepara-se para sua volta ao cume da montanha, à tranquilidade do seu lar.
Sábia, sente pelas costas os disparos de emoção feitos à revelia pelo rio, inconformado. Quer porque quer carregar a cabra consigo, mesmo que isso a afogue. Quer mostrar o mundo, quer doar aventura, quer sofrer e que seja junto! Mas os dois sabem o preço, o rio engoliria a cabra e nessa busca dentro de si mesmo, percebe que nenhum dos dois é completo. Em um último rasgo apaixonado, renuncia à sua própria natureza de correr livremente e lança um pouco de sua água para cima da montanha. Logo o líquido escorre pelos grãos de areia e pedra e acabam por voltar aos seu corpo, forçando-o a seguir adiante.
A cabra reinicia sua subida de forma transformada, certa de que precisava dessa experiência para acreditar que não há somente o gosto do solo no mundo. O amante não percebe, tal violento é o seu fluxo e acaba por banhar outros animais pelas barragens do caminho. Mas os dois sabem, aquele contato, aquele momento, não serão esquecidos, fazem parte da história dos dois. Do alto, a cabra retira de suas lembranças a força para continuar a testar o gosto dos caminhos. Prossegue na pachorra de viver sozinha, embora calejada.
Ao pé da montanha, o sentimental desce, viciado, desenfreado. Machucando as árvores, levando vida, destruindo o solo, batendo contra as pedras. Nos poucos segundos que pensa, o rio se conforma de que assim foi melhor. A cabra ao alto e ele ali, ainda inebriado de todas aquelas fortes sensações. De vez em quando, o rio lança seu olhar para cima da montanha e sorri, porque sabe que a cabra também se curva, a seu tempo, para ouvir o barulho das águas de amor que, como quem acena de longe, ele faz questão lançar ao ar todos os minutos. Então faz-se certo um novo encontro, em alguma outra paragem. Atemporal.
Índigo
Publicado por Darlon Silva em Textos Literários em 16/01/2012
De leve, ele corre pelas encostas barreadas, além do limite da sua criatividade. E vai desenhando, reformulando as listras trêmulas de suas paixões no quadro. Revive-as entre suspiros de saudades e surpresas ao relembrá-las. No quadro, a terra do chão que pisava na infância não é tão viva quanto a original, mas sustenta a obra de arte. Cigarro como companheiro e conselheiro oficial, o pintor tem a pele suada e queimada, da cor do Sol. A trilha sonora rápida envolve o processo criativo, que merda de texto é esse?
Sou eu mesmo, o pintor quem o escreve. E estou pintando, não escrevendo, no momento. Dá licença.



